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domingo, 3 de julho de 2011

Não é censura, é outra coisa



Não é censura, é outra coisa

2011-06-28

Tudo em seis meses: novo presidente, novo governo, nova maioria e ("zoom" para, sucessivamente, grande plano, plano aproximado e "close up") novo director do "Expresso" e novo Estatuto Editorial cujo ponto 7 reza: "O 'Expresso' sabe, também, que em casos muito excepcionais, há notícias que mereciam ser publicadas em lugar de destaque, mas que não devem ser referidas, não por autocensura ou censura interna, mas porque a sua divulgação seria eventualmente nociva ao interesse nacional. O jornal reserva-se (...) o direito de definir, caso a caso, a aplicação deste critério."

Chegou, pois, a altura de um jornal declarar, sem rebuço, que não publicará notícias "que mereciam ser publicadas em lugar de destaque" se entender que a sua divulgação pode "eventualmente" ser "nociva ao interesse nacional". O jornal ponderará, caso a caso, o "interesse nacional" das notícias, mas algo fica, desde já, claro: para esse jornal, a verdade factual deixou de ter por si só, mesmo dentro da lei, "interesse nacional"; e mais: o jornal passará a substituir-se ao poder político e a definir o que é, ou não, de "interesse nacional", podendo decidir não dar a conhecer verdades se as achar inconvenientes ou inoportunas. A bem da Nação.

Se ainda havia algum pudor, deixou de haver: um jornal assume às claras que se rege por critérios de oportunidade (políticos por excelência) e não exclusivamente por critérios jornalísticos.

sábado, 2 de julho de 2011

Pelo andar da carruagem



Pelo andar da carruagem

Ontem

Há um provérbio popular que, devidamente adaptado, se pode aplicar com proveito a governos: "Pelo andar da política fiscal se vê quem vai lá dentro". Porque, sendo a política fiscal um instrumento de redistribuição da riqueza e do rendimento, ela espelha, mais do que nenhuma outra, o rosto de uma governação.

Como se propõe um governo obter recursos?; como se propõe redistribui-los?, são questões cujas respostas dizem quase tudo o que quisermos saber sobre esse governo mas tivermos vergonha de perguntar.

Com o corte de 50% dos subsídios de Natal, o novo Governo tenciona obter 800 milhões de euros, saídos (na verdade nem lá chegarão a entrar) dos bolsos de trabalhadores e reformados.

E para onde irá tanto dinheiro? Com mais 800 milhões poupados em "acomodações" na despesa do Estado que "o senhor ministro das Finanças detalhará nas próximas semanas" (preparemo-nos para o pior, designadamente para mais cortes nos apoios sociais e na saúde), servirá para compensar os 1 600 milhões que o Estado deixará de cobrar com a redução de 4% da TSU das empresas. O que é o mesmo que dizer que 50% dos subsídios de Natal dos trabalhadores e reformados, mais as "acomodações" ainda a anunciar, irão parar às contas bancárias dos empresários. Será reconfortante ver passar um Ferrari (pelo menos em regiões deprimidas como a do Vale do Ave) e imaginar que talvez uma porca de um daqueles pneus seja o nosso subsídio de Natal.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Senhoras donas, por favor! - JN

Senhoras donas, por favor! - JN








Opinião



2008-09-28

Cada país (cada língua, cada cultura) tem a sua maneira específica de se dirigir às pessoas. Mal passamos Vilar Formoso, logo toda a gente se trata por tu, que os espanhóis não são de etiquetas nem de salamaleques.

Mas nós não somos espanhóis.

Também não somos mexicanos, que se tratam por "Licenciado" Fulano. Nem alinhamos com os brasileiros, para quem toda a gente é "Doutor", seguido do nome próprio: Doutor Pedro, Doutor António, Doutor Wanderlei, etc..

Por cá, Doutor é seguido de apelido, e as mulheres, depois de passarem por aqueles brevíssimos segundos em que são tratadas por "Menina", passam de imediato - sejam casadas, solteiras, viúvas ou amigadas, sejam velhas ou novas, gordas ou magras, feias ou bonitas, ricas ou pobres - à categoria de "Senhora Dona".

Mas parece que uns estranhos ventos sopraram pelas cabeças das gerações mais novas que fizeram o "dona" ir pelos ares ou ficar no tinteiro. Quando recebo daqueles telefonemas que me querem impingir tudo o que se inventou à face da terra-- desde "produtos" bancários que me garantem vida farta, até prémios que supostamente ganhei por coisas a que nunca concorri-sou logo tratada por "Senhora Alice." Respondo sempre: " trate-me por tu, se quiser; ou só pelo meu nome, se lhe apetecer; mas nunca por Senhora Alice".

Mas o cérebro destes pobrezinhos não foi formatado para encontrar resposta a estas coisas, e exclamam logo: "ah, então não é a Senhora Alice que está ao telefone!"

Eu sei que isto não é uma coisa importante, mas que é que querem, irrita-me quando oiço este tratamento dado às mulheres.

Tal como me irrita quando vejo/oiço um jornalista tratar por você alguém com o dobro da idade dele.

É uma questão de delicadeza. De respeito. E de saber falar português. Três coisas-admito-completamente fora de moda.

Pois qual não é o meu espanto quando, aqui há dias, na televisão, oiço o Senhor Primeiro Ministro referir-se assim à mulher (também odeio a palavra "esposa"…) do Comendador Manuel Violas. "A Senhora Celeste…." (não sei se é este o nome da senhora, mas adiante).

Fico parva. Nos cursos todos que tirou, ninguém lhe ensinou que as senhoras são todas "Senhoras Donas"?

Parafraseando livremente o nosso Augusto Gil, "que quem trabalha num call-center nos faça sofrer tormentos… enfim!/ Mas o Primeiro Ministro, Senhor? Por que nos dás esta dor? Por que padecemos assim?"

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Uma aventura na banda larga

Opinião







00h30m

Algo de que os clientes da TMN não podem queixar-se é de uma vida previsível e sem emoções. Eu que o diga, que tenho vivido aventuras inesquecíveis com uma dita "internet móvel mega-rápida" da TMN, em relação à qual, tarde o descobri, a única certeza que se pode ter é a de que não se pode ter certeza nenhuma. Ontem, por exemplo, não houve crónica porque a tal de "mega-rápida", depois de ter passado o dia com problemas de identidade, privilegiando-me antes com o estimado e "megalento" serviço de "Internet llega quando llega" da TMN, se ausentou para parte incerta à hora do envio para o JN. A crer no "Apoio a clientes", tudo estava, contrariamente às evidências, OK. Mas, pelo sim pelo não, que tentasse o "Apoio técnico". E eu caí nessa! Mesmo sabendo que a única resposta que se obtém do "Apoio técnico" é longos minutos a pagar para ouvir publicidade à TMN, e o convite para desligar com a promessa de ser contactado dentro de... 48 horas. Como estou "fidelizado" (caí também nessa) não posso mudar-me. Por isso, a crónica vai de novo ao cuidado da TMN. Se calhar de chegar é porque hoje é dia sim.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O dia de todos os prodígios

Opinião - Jornal de Notícias






00h36m

Apartir de hoje, tudo custará mais 1% (porque ou há moralidade ou tudo paga o mesmo, o pão como as trufas e o champanhe francês).

Mas não aumenta apenas o IVA, aumenta também, para quem não tiver trabalho, o tempo de descontos necessário para ter direito a subsídio de desemprego.

Ao menos nesse campeonato, o da destruição do Estado Social, não só ganhamos à Espanha como lhe estamos a dar uma abada pois, a partir de hoje, além de ser preciso descontar mais tempo para se ter subsídio, este será mais reduzido e os desempregados serão obrigados a trabalhar por menos dinheiro.

E - já que, como diria o outro, isto de destruir direitos sociais é como o "ketchup" - quem, acabado o subsídio, não tiver como sobreviver não sobrevive pois acaba também o prolongamento extraordinário do subsídio social de desemprego.

E é com um subsídio mais baixo e durante menos tempo, ou sem subsídio nenhum, que milhares e milhares de portugueses terão que pagar, a partir de hoje, mais 1% pelo pão nosso de cada dia.

É justo, alguém tinha que pagar o descontrolo orçamental e o preço do champanhe já está pela hora da morte.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Obviamente, demitam-no



Opinião - Jornal de Notícias


Ontem

Os governos de José Sócrates conduziram o país a uma situação deplorável, a pior de que há memória. Em tudo que mexe, o Governo estraga. O desemprego atingiu uma dimensão socialmente insuportável. São já 600 mil os afectados, cerca de metade dos quais não dispõe sequer de qualquer rendimento. A dívida pública chegou aos piores valores desde os alucinantes tempos da Primeira República, o país ameaça bancarrota.

Perante cada nova dificuldade, o Governo agrava os problemas, em vez de os minorar. Sócrates não consegue reduzir o esbanjamento no Estado, aumenta impostos e estrangula a economia. Já sem rumo, o Executivo tropeça em contradições constantes. Ora apresenta medidas de apoio aos desempregados e incentivos às empresas; ora anuncia o fim das medidas de combate à crise… em nome da própria crise. Sócrates assegura que o aumento de impostos é por um ano, e, no dia seguinte, Teixeira dos Santos vem proclamar que o sacrifício perdurará no tempo.

Os portugueses sofrem amargamente os resultados destas políticas erráticas. Mas nem todos… O Governo não mexe nos interesses dos construtores e da banca, mantém a intenção de construir o TGV e o novo aeroporto. Nem tão-pouco acaba com os privilégios duma corte de assessores. Por outro lado, acentua a discriminação em termos regionais, martirizando os nortenhos com portagens nas vias rápidas, enquanto se isentam lisboetas e algarvios. O chefe do Governo faz assim tábua rasa dum princípio constitucional básico, o de tratar por igual todos os cidadãos.

O primeiro-ministro de Portugal não tem já qualquer credibilidade. Envolvido em sucessivos escândalos, da licenciatura "fast-food" ao caso Freeport, já roça o patético. No recente episódio do encontro forjado com o cantor Chico Buarque, anunciado como a pedido deste, foi desmascarado. Com mais esta mentira, deixa-nos a todos envergonhados.

Sócrates é inapto, sacrifica desfavorecidos, preserva uma estrutura de poder inútil, beneficia os amigos do regime com negócios, é caprichoso e mimado. Para mim, basta! Despeçam-no.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Raposas no galinheiro

Raposas no galinheiro - JN


Opinião



A notícia tem uma semana, o que não será tempo de mais considerando que não é, apesar de tudo (principalmente apesar daquilo em que se tornou a ONU), de fácil digestão: a Líbia foi eleita pela Assembleia Geral da mesma ONU, presidida por um líbio, como membro efectivo do Conselho dos... Direitos do Homem. Acompanham-na outros regimes igualmente, como a Jamahiriya líbia, conhecidos como defensores estrénuos dos direitos e das liberdades individuais (e os seus cidadãos que o digam), como Angola e o Uganda. Infelizmente o Irão, que chegou a candidatar-se, desistiu e a Coreia do Norte, a China, o Zimbabwe ou a Birmânia não se apresentaram a votos, pelo que o leque não fica completo; mas, ao menos, foi também eleita a Tailândia. Nos próximos três anos veremos, pois, José Eduardo dos Santos, o coronel Kadhafi e o general Museveni a aconselharem o mundo sobre o respeito dos direitos humanos. Meter as raposas no galinheiro sempre foi, como se sabe, a melhor forma de proteger as galinhas e a ONU reconquista assim o prestígio perdido com a recente não eleição de um censor para director-geral da UNESCO.


Manuel António Pina

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Notícias do naufrágio

Opinião







00h00m

Diz-se que, enquanto o Titanic se afundava, no salão de festas a orquestra continuou a tocar. A ter sido assim, deve ter havido um momento em que, ou porque a água chegou aos instrumentos ou porque chegou o pânico aos instrumentistas, a orquestra desafinou.

Ouve-se o primeiro-ministro dizer que o défice foi, afinal, uma opção do Governo, espécie de derrapagem controlada para tentar sair em velocidade da curva e, ao mesmo tempo, o ministro das Finanças confessar que se enganou quanto ao tamanho do "iceberg", e a desafinação dos solistas da crise orçamental não parece bom prenúncio. Acrescente-se a visão do governador do Banco de Portugal metido num bote a caminho de uma organização internacional e ceceando a monótona mantra do "Aumentem-se os impostos, baixem-se os salários" enquanto se multiplicam os rombos na credibilidade das instituições, e justificar-se-ia que crescesse a inquietação. Mas o Sporting perde, o Benfica empata, o seleccionador nacional esmurra não sei quem e Mimi Travessuras vem cantar a Lisboa. E, como que por milagre, dissipam-se, a julgar pelos jornais, todos os perigos.

O preço do asfalto

Opinião





00h00m

1. O ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, tinha sido absolutamente claro: só avançavam as auto-estradas já adjudicadas. As outras ficavam para ocasião mais abonada. E ficavam auto-estradas por fazer da mesma forma que os funcionários públicos ficavam com os salários congelados. Acontece que, uns dias depois, em pezinhos de lã, lá veio o ministro das Obras Públicas corrigir o discurso para uma versão diferente e "ligeiramente" mais cara. Segundo António Mendonça, além das auto-estradas já adjudicadas, o Orçamento do Estado ainda tem fôlego para algumas das que estão em fase final de concurso. Nem por acaso, um desses pacotes é o das Auto-Estradas do Centro. Uma obra que vai custar entre 1418 e 1701 milhões de euros, consoante a obra seja entregue à Mota-Engil ou à Soares da Costa. Na verdade, seria uma injustiça deixar de fora este projecto por questões administrativas de pormenor. A obra só não está ainda adjudicada porque o concurso tinha sido anulado, à conta do preço excessivo que os consórcios pretendiam cobrar ao Estado. Há uns meses, imagine-se, a Mota-Engil subiu a sua proposta de 535 milhões para 1100 milhões. Um preço inaceitável. Felizmente houve bom senso e promoveu-se um novo concurso. Agora só vai custar 1418 ou 1701 milhões… [Só para o caso de algum leitor notar alguma incongruência, os números são mesmo estes]

2. Se querem saber a verdade sobre Portugal, estejam atentos ao que dizem os ministros espanhóis. Querem exemplos? Em Novembro passado, enquanto o nosso ministro das Obras Públicas, António Mendonça, andava a conhecer os cantos à casa, apareceu por cá o ministro do Fomento espanhol, José Blanco López, comunicando que, ao contrário do que nos prometia o Governo, a construção da linha de TGV entre Porto e Vigo já tinha sido adiada de 2013 para 2015. Isto porque "nuestros hermanos" prezam muito os acordos internacionais, mas preocupam-se em primeiro lugar com os interesses do seu país. Era pegar ou largar. Por estes dias, foi a vez do ministro do Interior espanhol, Alfredo Perez Rubalcaba, nos elucidar sobre o que anda a ETA a fazer em terras lusas. Enquanto, do lado de cá, Rui Pereira protagonizava um ruidoso silêncio, o ministro espanhol explicava--nos que os terroristas não só se refugiaram em Portugal, como passaram a usar o nosso país como centro de operações. Ou seja, o chefe das nossas "secretas" - que em Janeiro rejeitava como "especulativa" qualquer teoria que olhasse para os etarras em Portugal como mais do que simples turistas - anda a apanhar bonés. E com ele o nosso ministro da Administração Interna. A julgar pelas informações que chegam de Espanha, a ETA não só construiu uma "fábrica de morte" em Óbidos, como deverá ter mais algumas bases em território luso. Resumindo, e para voltar ao princípio, o que nos vale são os ministros espanhóis para saber a verdade sobre Portugal.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Mário Crespo cessa colaboração no JN

Nota da Direcção



O jornalista Mário Crespo foi até ontem colaborador de opinião do Jornal de Notícias. Essa colaboração cessou por sua vontade. Acontece que, no domingo à noite, o director do JN o contactou dando-lhe conta das dúvidas que lhe causava o texto que Mário Crespo enviara para publicação no dia seguinte. Basicamente, no entender do director do JN o texto de Mário Crespo não era um simples texto de Opinião mas fazia referências a factos que suscitavam duas ordens de problemas: por um lado necessitavam de confirmação, de que fosse exercido o direito ao contraditório relativamente às pessoas ali citadas; por outro lado, a informação chegara a Mário Crespo por um processo que o JN habitualmente rejeita como prática noticiosa; isto é: o texto era construído a partir de informações que lhe tinham sido fornecidas por alguém que escutara uma conversa num restaurante.



Da conversa entre o director e o colaborador do jornal resultou que este decidiu retirar o texto de publicação e informou que cessava de imediato a sua colaboração com o jornal, o que a Direcção do JN respeita.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

No TWITTER


JMF sobre o artigo de Mário Crespo das segundas-feiras no JN

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O pelintra pródigo

Opinião







Ontem
A notícia vem no DN: o Governo português comprometeu-se a emprestar a Angola até 200 milhões de dólares. Para isso, apesar de a dívida externa do país ultrapassar já os 100% do PIB (e com as agências de "rating" a anunciar, em face disso, o aumento das taxas de juro da remuneração da dívida), o Governo irá contrair um (mais um) empréstimo.

A boa notícia é que o mais certo é que parte desses milhões, ao menos a das "comissões" e das "contrapartidas", acabe por voltar a penates, seja através das empresas e dos negócios do costume, seja em artigos de "griffe" como relógios de ouro Rolex e Patek Phillipe, pulseiras Dior e H. Stern, roupas Ermenegildo Zegna e até... casacos de peles, comprados nas lojas de luxo de Lisboa sem olhar a preços. De facto, as elites do regime angolano constituem hoje, segundo uma notícia publicada pelo "Expresso" em finais de 2009, 30% do mercado de luxo português. Que isso nos sirva de conforto, aos pelintras contribuintes portugueses, quando pagarmos a escandalosa factura dos 200 milhões. Porque, como diria o gondoleiro de "A morte em Veneza", haveremos de pagá-la.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Um dia dos diabos

Opinião







JN 00h30m

Nos bancos há um centro nervoso onde tudo se decide. Chamam-lhe o Trading Room. É um mundo de ecrãs de plasma com colunas de números abstractos em páginas de Excel onde nunca se fala de milhões.

Está tudo em poucos dígitos meticulosamente metidos em rectângulos. Três casas à esquerda do ponto decimal vão das unidades às centenas. Do outro lado, há décimas, centésimas e milésimas. Abstractos os números, concretos os valores. São milhares de milhões. Por vezes são milhões de milhões.

Operadores com um clique do rato fazem ajustamentos nas variações que vão surgindo, induzidas por murmúrios digitais que chegam de Nova Iorque a Moscovo. Raramente há pânico no Trading Room. Está (quase) tudo previsto. Há paramentos hirtos e muito pouco lugar para criatividades. Um clique numa coluna eleva alguns milésimos os dígitos que, quase à velocidade da luz, aparecem fardados de centavos de Euro nas facturas de uma qualquer parcela mensal de empréstimo e quase nem se notam. Afinal, já se sabia que o spread era variável e que do spread sai tudo. Dos custos do banco aos lucros.

Normalmente as coisas acontecem com a banalidade de um monótono jogo de vídeo online. Muito, muito, gradualmente. Mas quinta-feira 14, deste mês, foi um dia dos diabos. Houve pânico. Os sinais vieram de Hong Kong a Singapura a partir das oito da manhã. Diziam que o negócio da compra e venda de dinheiro estava a correr mal. Os fornecedores habituais estavam a subir o preço da mercadoria. Muito. Mesmo para estes dias de crise. Cliques frenéticos do rato já não conseguiam equilibrar os rectângulos Excel com toques nas milésimas. Vieram supervisores mexer nas casas à esquerda dos pontos decimais. Alteraram as dezenas dos dígitos a ver se tudo ficava na mesma. Ficou num segundo. No segundo seguinte, ficou tudo desequilibrado outra vez. "As CDS estão a disparar". "124,365 tenho aqui na melhor oferta". E continuaram por aí fora saltando dezenas de pontos. De 80 na semana passada para mais de 140 hoje. E as prestações de milhares de pessoas começaram a subir. Janeiro vai ser um mês dos diabos para os rendimentos a recibo verde contados em salários mínimos onde o clique dos ratos não equilibra contas. 14 de Janeiro de 2010. Início do pânico: começaram as negociações para o Orçamento do Estado. Inconclusivas, inadequadas, insuficientes. As empresas estrangeiras, cujo negócio é avaliar riscos para o mercado que fixa com uma mão invisível as Credit Default Swaps, estiveram atentas ao que a Reuters e a CNBC foram relatando em várias línguas: em Lisboa gasta-se muito e paga-se mal. De Berlim ao Dubai há cliques nos rectângulos das linhas onde se lê "Portugal" e onde hoje há números quase iguais aos da Irlanda que amanhã serão parecidos com os da Grécia. E que dizem que este vai ser mesmo um ano dos diabos.

O "terramoto experimental"

Opinião






JN 00h30m


Felizmente há sempre algures um ministério para esclarecer o povo.

No caso do terramoto que devastou o Haiti, o esclarecimento vem do sempre atento Ministério do Poder Popular para a Comunicação e a Informação do Governo Bolivariano da Venezuela que, no seu "site" oficial (www.vive.gob.ve/inf_art.php?id_not=15464&id_s=3), explica tintim por tintim ao Mundo que o sismo foi causado... pelos Estados Unidos.

Os EUA estão a testar uma arma diabólica, o HAARP, que desencadeia terramotos (e furacões, secas e inundações) usando "radiofrequências", "bombas de ondas de choque" e tecnologias misteriosas como "Pulso, Plasma y Sónico Electromagnético Tesla" (em espanhol bolivariano a coisa é ainda mais assustadora).

O objectivo é um plano maquiavélico de destruição do Irão "através de uma série de terramotos que derrubem o regime islâmico".

Já o sismo de Maio de 2008 em Sichuan, na China, foi também um "terramoto experimental" dos EUA. O Ministério de Chavez não o diz expressamente, mas não custa a crer que os EUA também não sejam alheios ao terramoto que na semana passada abalou o balneário do Sporting.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Manuel Alegre, capítulo dois

Opinião








Ontem


Todos fingiram surpresa quando Manuel Alegre anunciou a intenção de voltar a candidatar-se a Belém. Como se o homem, fiel a uma estratégia tão previsível que até irrita, não tivesse já emitido mil e um sinais de que era essa a sua vontade.

A candidatura é "irreversível", diz-se. Não se entende como poderia ser reversível. Em política, ninguém põe o dedo no ar - muito menos Alegre! - para mais tarde argumentar que o fez por sofrer de problemas de articulações. Articulações - ora aí está a palavra adequada. Como vai ele articular a candidatura com a sua putativa base de apoio, se ao anunciá-la o que fez foi condicionar o partido em que milita?

Sabia de antemão que seria esse o efeito, dir-se-á. E que é precisamente o que lhe convém, porque resultou em 2006. É esquecer que, desta vez, Manuel Alegre não quer apenas a "vitória moral" de superar o candidato oficial do PS; ambiciona mesmo suceder a Cavaco Silva. Ora esse objectivo só pode ser alcançado se a candidatura ganhar em transversalidade o que perder em "acantonamento". Dito de outra forma: é pouco provável que consiga ser eleito, se se apresentar como "ponta-de-lança" da "verdadeira" Esquerda (nisso, António Vitorino tem razão).

O alargamento do campo eleitoral num sentido, digamos assim, mais "abrangente" não se compagina com o perfil político que Alegre tem vindo a fabricar, nos últimos anos. Muito menos com o apressado apoio do Bloco de Esquerda, inebriado pela oportunidade de ouro de "entalar" o PS. Um apoio tão apressado que pode converter-se em teste à unidade de um partido com múltiplas raízes. Não é um dado adquirido que, no interior do Bloco, o nome de Alegre seja consensual.

Em jeito de desafio aos comunistas para que engulam de novo um sapo - como em 1986, quando acabaram a votar no "odiado" Mário Soares -, Alegre lembrou que "nunca a Esquerda perdeu umas eleições presidenciais por causa do PCP". Salta à vista que empreende uma estratégia "de fora para dentro", privilegiando a multiplicação de apoios externos para forçar quem decide (Sócrates, claro) a carimbar-lhe o passaporte.

A ver vamos se o consegue. E se obtém novos apoios no interior do partido, porque os que até agora recolheu valem o que valem. Valem desconforto à direcção que, sem carta alternativa para jogar, se limita a dizer o óbvio: que a seu tempo tratará do dossiê presidenciais.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Despilfarro

Opinião






JN 00h26m

A Oposição pode sentar-se à mesa das negociações, até pode ter direito a prato e a talheres, mas não pode servir-se. Chama-se a isto negociar com aspas



1O Governo anunciou, com a solenidade dos grandes momentos, que iria abrir um período de negociações com todos os partidos de oposição, no sentido de ouvir opiniões e concertar posições, para que fosse possível desenhar um Orçamento de Estado capaz de passar na Assembleia da República.

Tal como se previa, foi junto do centro-direita que se encontrou o espaço natural de negociação - não foi à toa que se inventou a expressão bloco central, aqui e ali complementada com a ambígua expressão "de interesses".

Mas os partidos têm de aceitar uma condição essencial: a Oposição, neste caso o PSD e o CDS-PP, não pode andar por aí a reivindicar propostas que aumentem a despesa ou diminuam a receita. Como diz Teixeira dos Santos, em tom de ameaça, se insistirem em apresentar propostas diferentes das do Governo, vai ser preciso aumentar impostos aos portugueses.

Ou seja, a Oposição pode sentar-se à mesa das negociações, até pode ter direito a prato e a talheres, mas não pode servir-se. Chama-se a isto negociar com aspas.

2. A mudança de uma corrida de aviões, do Douro para o Tejo, gerou uma onda de inquietação. Ouviram-se e leram-se alguns excessos, amplificando um evento com menos importância do que a que lhe decidiram atribuir. Mas também se ouviram alguns alertas razoáveis ao apetite centralista, que açambarca tudo o que apareça na rede, incluindo peixe fora de prazo.

Verifica-se agora que, tal como a Red Bull Air Race, também o histerismo em volta da prova se transferiu do Porto para Lisboa. A vontade de ouvir roncar os motores sobre o estuário do Tejo é tanta que se abriram os cordões à bolsa pública com uma generosidade nunca antes vista.

Os milhões que a organização da prova antes tinha de batalhar junto de patrocinadores privados ficam generosamente garantidos à partida por entidades públicas. Ou seja, as fabulosas máquinas voadoras vão consumir "gasóleo" pago com o dinheiro dos contribuintes.

Os espanhóis têm uma palavra com uma sonoridade interessante para descrever este esbanjamento compulsivo: despilfarro.

Outra vez não

Opinião






JN 00h25m

A compra da TVI e agora o caso de Marcelo Rebelo de Sousa mostram que afinal Manuela Ferreira tinha toda a razão. Quando a líder do PSD o denunciou, estávamos de facto a viver um processo de "asfixia democrática" com este socialismo que José Sócrates reinventa constantemente. Hoje o garrote apertou-se muito mais. Ridicularizámos Ferreira Leite pelos avisos desconfortáveis e inconvenientes. No estado de torpor em que caímos provavelmente reagiríamos com idêntica abulia ao discurso da Cortina de Ferro de Winston Churchill quando o mundo foi alertado para a ameaça do totalitarismo soviético que ninguém queria ver. Hoje, quando se compram estações para silenciar noticiários e se afastam comentadores influentes e incómodos da TV do Estado, chegou a altura de constatar que isto já nem sequer é o princípio do fim da liberdade. É mesmo o fim da liberdade que foi desfigurada e exige que se lute por ela. O regime já não sente necessidade de ter tacto nas suas práticas censórias. Não se preocupa sequer em assegurar uma margem de recuo nos absurdos que pratica com a sua gestão directa de conteúdos mediáticos. Actua com a brutalidade de qualquer Pavlovitch Beria, Joseff Goebbels ou António Ferro. Se este regime não tem o SNI ou o Secretariado Nacional de Propaganda, criou a ERC e continua com a RTP, dominadas por pessoas capazes de ler os mais subtis desejos do poder e a aplicá-los do modo mais servil. Sejam eles deixar que as delongas processuais nas investigações dos comportamentos da TVI e da ONGOING se espraiem pelos oceanos sufocantes do torpor burocrático, seja a lavrar doutrina pioneira sobre a significância semiótica do "gestalt" de jornalistas de televisão que se atrevam a ser críticos do regime, seja a criar todas as condições para a prática de censura no comentário político, como é o caso Marcelo Rebelo de Sousa. Desta vez, foi muito mais grave do que o que lhe aconteceu na TVI com Pais do Amaral. Na altura o Professor Marcelo saiu pelo seu pé quando achou intolerável um reparo sobre os conteúdos dos seus comentários. Agora, com o característico voluntarismo do regime de Sócrates, foi despedido pelo conteúdo desses comentários. Nesta fase já não é exagerado falar-se da "deriva totalitária" que Manuela Ferreira Leite detectou. É um dever denunciá-la e lutar contra ela. O regime de Sócrates, incapaz de lidar com as realidades que criou, vai continuar a tentar manipulá-las com as suas "novilínguas" e esmagando todo o "duplipensar" como Orwell descreve no "1984". Está já entre nós a asfixia democrática e a deriva totalitária. Na DREN, na RTP, na ERC, na TVI e noutros sítios. Como disse Sir Winston no discurso da Cortina de Ferro: "We surely, ladies and gentlemen, I put it to you, surely, we must not let it happen again", o que quer apenas dizer: outra vez não.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Eles têm a solução

Opinião







JN 00h23m

O ex-presidente da Associação Portuguesa de Bancos pediu para ser recebido em Belém onde foi levar a solução que a brigada bancária de minas e armadilhas tem para a tal "situação explosiva".

Para pagar a factura económica dos milhões dos contribuintes que o Estado meteu nas mãos da banca tentando apagar o fogo que ela, banca (e as agências de "rating" que agora dão conselhos aos governos para superar a "crise") atearam, a solução da banca é a de sempre: trabalhadores e classe média que paguem. Também o governador do Banco de Portugal, cuja desregulação permitiu entre nós situações como a do BPN e BPP, tirou ontem o coelho de sempre da pouco imaginativa cartola, o da contenção salarial. Obviamente, nem a Salgueiro nem a Constâncio ocorreram as escandalosas taxas de IRC que a banca continua a pagar, os prémios não menos escandalosos que os banqueiros continuam a atribuir-se ou a tributação das mais-valias da especulação bolsista e imobiliária. Diz despudoradamente Salgueiro que os governos "deram menos aos portugueses do que estes gostariam". É fácil imaginar de que portugueses fala.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Não se marque já o funeral...

Opinião







JN 00h31m

Anda por aí muito comentador encartado a passar certidões de óbito ao PSD, por tardar a reencontrar-se consigo próprio. Marcar o funeral com o corpo ainda quente parece, no mínimo, pouco avisado, tratando-se de um gato de sete vidas, mesmo acossado pelo "socratismo" que, embora na mó de cima, também já teve mais saúde.

Se a memória for convocada para o debate, relativizar-se-á o coma político que tantos diagnosticam. O PSD sofreu mil e um golpes na sua história e sobreviveu sempre. Só em 1979, viu partir mais de metade do grupo parlamentar, incluindo um ex-presidente (Sousa Franco) e um futuro (Rui Machete), discordantes do ataque ao Governo Mota Pinto, dissidente do partido que também seria, mais tarde, recebido como filho pródigo e alcandorado a líder. Por efeito desse episódio, o PSD encostou-se mais à Direita do que o seu código genético indiciaria. Não precisou, contudo, de recolher aos cuidados intensivos para recuperar. Logo em finais de 1979, como partido hegemónico da AD, chegaria pela primeira vez ao poder.

Esta incursão histórica, se não elide a crise que o PSD atravessa, recomenda pelo menos cautelas quanto à apreciação do seu fôlego enquanto alternativa política, mais a mais num cenário de maioria relativa.

O actual problema do PSD não é um, são três. O primeiro é, digamos assim, estrutural. Trata-se do "pecado original" da indefinição ideológica, porventura útil quando governa, mas que o vulnerabiliza na Oposição. O segundo prende-se com a "orfandade" em que ainda vive. "Matou" seis líderes desde que Cavaco Silva fez as malas e prepara as exéquias do sétimo. Nada que não tenha acontecido ao PS no período pós-Soares. Quem sucede a um grande líder político fica sempre fragilizado por essa condição, quanto mais não seja por se expor a comparações. Marcello Caetano, se fosse vivo, explicá-lo-ia.

Estes dois factores, conjugados, produzem o terceiro. Não sabendo bem "quem é" (até porque o PS lhe tem ocupado o território natural) e carente de líder forte, o PSD tende a balcanizar-se. O impulso é tanto mais forte quanto mais longínqua for a perspectiva de regresso ao poder. Estivesse o PS na eminência de atirar a toalha ao chão e não faltariam candidatos - se teriam êxito é outra questão. Assim, só Passos Coelho se chega à frente. Como tem idade para se submeter a um "estágio", não perde nada. E pode ir, paulatinamente, fazendo caminho interno.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A culpa de Eva

Opinião








00h00m

Uma inglesa de 23 anos queixou-se à polícia do Dubai por ter sido violada por um empregado de hotel, e acabou detida por sexo "ilegal" e consumo ilícito de álcool, arriscando 6 anos de prisão.

A notícia veio na edição "online" do "Expresso" e vale a pena ler alguns dos comentários que suscitou, que revelam até que ponto continuamos, no que respeita à mulher, presos a uma cultura atávica de preconceitos e intolerância boçais, de raiz cristã mas não substancialmente distinta, talvez só um pouco mais envergonhada, da que enforma a "sharia" das teocracias islâmicas. O tipo comum de homem português tem, de facto, telemóvel de última geração no bolso, alta definição na sala e a "coutada do macho latino" na cabeça. E se a lei (sobretudo a civil, mas também a penal) se tem entre nós autonomizado progressivamente da influência da Igreja, a "provocação" da mulher continua, por exemplo, a ser "atenuante" em crimes de violação. Como se, vindas do fundo do cérebro reptilíneo, as sombras de Tertuliano ou de S. Paulo nos fornecessem permanentemente o álibi de que precisamos, o de que Eva "provocou" Adão.