Cena um
Uma criança igual a muitas outras. Dez, onze, doze anos... calção vermelho pelos joelhos, t-shirt, cabelo escuro, liso, meio curto, acompanhada por um adulto de calção e apito ao pescoço que a agarrava, e puxava, e empurrava enquanto lhe falava num tom de voz alto, agressivo, intimidatório. “João, hoje não escapas, tens que correr...”, e o menino a debater-se, a tentar não ser agarrado, puxado, empurrado, para o suposto local onde o homem de calção e apito o queria levar. À força.
Cena dois
Um passante alertado por um tom de voz alto, agressivo, que se admira de ver uma criança, - que timidamente se debate - a ser puxada, empurrada por um adulto de calção e apito ao pescoço e, se aproxima para tentar perceber melhor do que se trata e, ostensivamente, se mostra na tentativa de, com a sua presença, pôr fim ao tormento da criança. E o homem do apito sempre a puxar o menino. - “Olhe lá, o que é que se passa aí? O que está a fazer à criança?” - "Não se meta, não lhe diz respeito!” – “Ai diz, diz! O senhor está a maltratar uma criança e isso é crime público...! O senhor é pai do menino?” – “Não, não sou! Fui contratado pelos pais para o treinar porque ele é muito desobediente e hoje tem que correr...”
Tudo sempre no meio de puxões e empurrões e a criança a debater-se e a tentar fugir da mata. – “Olhe lá, acabe com isso! a criança está assustadíssima...” – “Já lhe disse, não se meta, não é consigo!” E o passante a tirar o telemóvel do bolso para fotografar ou chamar a Polícia e o dos calções e apito ao pescoço a agarrar a criança pela ponta da t-shirt, que entretanto tinha já passado o portão da mata, e o passante a dizer e a repetir: - “João! Dá-me o teu número que eu ligo aos teus pais e peço ajuda...! João...” e o menino a tentar escapar, sempre agarrado pelo do apito que, com ar ameaçador lhe dizia coisas junto ao ouvido, coisas que se perderam na distância enquanto subiam apressados a avenida.
Na manhã de 18 de Agosto. Mata do Jamor. Junto ao portão da Av. Duque de Loulé, em Linda-a-Velha.