O leitor acompanhou a história daquele burlão que apareceu na comunicação social a dar falsas esperanças aos portugueses? Foi realmente incrível, a mensagem de Natal de Pedro Passos Coelho
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terça-feira, 15 de janeiro de 2013
ANDAVA UM BURLÃO EM PORTUGAL MAS IDENTIFICARAM-NO
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Câmara Municipal da Lâmpada Roxa

Al Capone daria um excelente candidato autárquico em Portugal, numa primeira fase apoiado por um partido e, quando desse muito nas vistas, como independente
8:52 Quinta-feira, 8 de Out de 2009
O fenómeno mais interessante da política local é a atracção que os arguidos têm pelas autarquias. As autarquias estão para os arguidos como aquelas lâmpadas roxas dos restaurantes estão para as moscas. Sem pretender ser ofensivo para as moscas, a verdade é que o mecanismo é extremamente parecido. Só não é igual porque, ao passo que as moscas falecem quando tocam na lâmpada, os arguidos ganham nova vida assim que entram na Câmara Municipal.
8:52 Quinta-feira, 8 de Out de 2009
O fenómeno mais interessante da política local é a atracção que os arguidos têm pelas autarquias. As autarquias estão para os arguidos como aquelas lâmpadas roxas dos restaurantes estão para as moscas. Sem pretender ser ofensivo para as moscas, a verdade é que o mecanismo é extremamente parecido. Só não é igual porque, ao passo que as moscas falecem quando tocam na lâmpada, os arguidos ganham nova vida assim que entram na Câmara Municipal.
Não sei se o leitor tem conhecimento disto, mas o termo autarquia provém de duas palavras gregas que são muito difíceis de pronunciar. Este é um primeiro ponto curioso. O segundo ponto é que essas palavras significam "comando de si mesmo", ou "governo de si mesmo". Na origem, esse significado indica que uma autarquia é o governo que determinada localidade exerce sobre si mesma. No entanto, alguns autarcas fazem uma interpretação ligeiramente diferente, mas que não pode deixar de se aceitar: na expressão "governo de si mesmo", aquele "si mesmo" é o autarca. É ele que, no sábio jargão dos taxistas, se governa. E assim se regista um ponto de contacto entre a etimologia grega e os modernos motoristas de táxi, ligação que sempre suspeitei que existia.
A candidatura autárquica é o equivalente, nos jogos de vídeo, às vidas infinitas. Não há estrago da vida pessoal do candidato que não possa ser resolvido com uma candidatura autárquica. Penas de prisão, desemprego na família, despesas com obras: não há mal que uma candidatura autárquica não adie ou resolva. Sobretudo devido ao prurido democrático que a maior parte dos eleitores tem em votar num autarca que não seja arguido. Se vivesse em Portugal, Al Capone nunca teria sido preso. Em princípio, seria presidente de Câmara. Os cidadãos não hesitariam em votar num homem que, sendo famoso, tinha, além disso, demonstrado saber criar emprego em várias áreas de negócio, com especial destaque para as tão apreciadas pequenas e médias empresas. Desde as cimenteiras até às agências funerárias, quase não há indústria que não tenha beneficiado das actividades de Al Capone. Não duvido de que daria um excelente candidato autárquico em Portugal, numa primeira fase apoiado por um partido e, quando desse muito nas vistas, como independente. A única reserva que coloco ao sucesso de Al Capone na política autárquica portuguesa é a consciência do conhecido gangster americano. Poderia dar-se o caso de Capone ficar inibido com tanta vigarice e desejar voltar para Chicago.
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quinta-feira, 27 de agosto de 2009
BOCA DO INFERNO

A fixação proibida
O cartaz do PS é uma reprodução da bandeira nacional, mas com senhoras verdes à esquerda, senhoras vermelhas à direita, e José Sócrates no lugar da esfera armilar
7:18 Quinta-feira, 27 de Ago de 2009
A afixação de cartazes é um dos momentos mais interessantes da disputa política: gente que, em geral, não tem bom aspecto, procura convencer os cidadãos, exibindo uma fotografia sua. Os primeiros cartazes desta campanha devem merecer, por isso, uma análise cuidada. Enquanto esperamos que alguém a faça, o leitor pode sempre entreter-se com a minha.
O cartaz do PS é uma reprodução da bandeira nacional, mas com senhoras verdes à esquerda, senhoras vermelhas à direita, e José Sócrates no lugar da esfera armilar. É possível que as senhoras verdes estejam verdes de fome, e as senhoras vermelhas estejam vermelhas de irritação por estarem desempregadas. Mas tanto as senhoras verdes como as senhoras vermelhas olham para o primeiro-ministro com benevolência, o que leva a acreditar que se trata de uma fotomontagem. Na testa de uma das senhoras vermelhas está o slogan: "Avançar Portugal". Uma agramaticalidade que pode ser mais um efeito da insatisfação social: tendo em conta o estado a que chegou a relação entre o Governo e os professores, é natural que não tenha havido ninguém a avisar o PS de que "Avançar Portugal" não é das frases mais escorreitas que já foram escritas no nosso idioma.
Em contraponto, os cartazes do PSD apresentam desde logo uma vantagem cromática: são os únicos que incluem uma senhora que não está verde nem vermelha. Manuela Ferreira Leite aparece com a sua cor natural ao lado de frases que o PSD recolheu junto daquela entidade a que antigamente se chamava "povo" e a que hoje se chama "pessoas". Antes das frases, para que não haja dúvidas sobre a sua autoria, diz: "Ouvimos os Portugueses", assim mesmo, com maiúscula. O PSD, à semelhança do que sucede com os outros partidos, aproveita a campanha para ouvir os portugueses, e faz questão de os escutar com particular atenção agora, uma vez que vai passar os próximos cinco anos a ignorá-los. Há um tempo para tudo.
O cartaz do PCP contém a palavra "Mudança" (change, em inglês), e a frase "Sim, podemos ter uma vida melhor" (em inglês, "Yes, we can", etc.). Onde é que eu já ouvi isto? Não me lembro, mas parece-me que a fotografia do cartaz mostra um Jerónimo de Sousa bastante mais bronzeado do que é costume. A campanha dos comunistas portugueses usa os mesmos lemas que a campanha do chefe do imperialismo americano, facto que mais uma vez me obriga a constatar que não percebo nada de política.
O cartaz mais arriscado é o do CDS. Ao lado da fotografia de Paulo Portas aparece a frase "Há cada vez mais pessoas a pensarem como nós". "Sim, mas são todos sócios da Autocoope", dirão os cínicos que sistematicamente identificam o discurso do CDS com o dos taxistas. O certo é que a mensagem do cartaz é arriscada na medida em que, para chegar à conclusão de que há cada vez mais pessoas a pensar como o CDS, os democratas-cristãos tiveram forçosamente que fazer uma sondagem. Ora, os democratas-cristãos têm-nos dito com muita insistência que não devemos fiar-nos nas sondagens. Que fazer? Eis um cartaz que estimula o pensamento político mas também o filosófico.
Quanto ao Bloco, que eu tenha visto, não tem ainda novos cartazes com as suas principais caras. O Bloco tem, evidentemente, caras para pôr em cartazes, mas talvez não saiba ainda quais dessas caras vão estar nos cartazes do PS. Há que esperar e ver quem sobra.
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sexta-feira, 10 de julho de 2009
Haste la vista, Pinho

Tendo em conta o trabalho feito por Manuel Pinho no seu ministério, nenhum daqueles cornos seria, de certeza, o corno da abundância
Quinta-feira, 9 de Jul de 2009 – Visão
São semanas como esta, em que um ministro é demitido e os dias seguintes são passados a tentar apurar o significado e o destinatário de um par de cornos, que me fazem perceber como estive desatento nas aulas de Ciência Política. Os chifres são, ao que vejo agora, um elemento central da actividade parlamentar, mas eu desconheço em absoluto as principais ideias produzidas sobre o tema. De Platão a John Rawls, todos lhes terão dedicado ao menos um capítulo - e eu não vi. De chavelhos, confesso, não percebo a ponta dum chavelho.
Ainda assim, é meu dever tentar perceber a razão pela qual Manuel Pinho acabou como Manolete: por causa de um par de cornos, a sua carreira chegou ao fim. Qual é, então, o significado político das hastes de Pinho? Com que fim as apontou à bancada do PCP? Quanto tempo depois da conclusão do ciclo preparatório é aceitável que, numa discussão, um indivíduo continue a fazer corninhos na direcção do seu interlocutor? São estas as questões que precisam de resposta urgente.
A queda de Pinho, mais que uma explicação política (ou até tauromáquica), tem uma explicação religiosa - até porque estava prevista na Bíblia. Chamo a atenção do leitor para o salmo 75, versículo 5: "Disse eu aos loucos: não enlouqueçais; e aos ímpios: não levanteis os cornos. Não levanteis em alto vossos cornos." Não surpreende que quem desobedece ao Senhor acabe castigado. Mas impressiona que até Deus, na sua infinita bondade, também já tenha perdido a paciência com o governo do PS. Mas que cornos eram, afinal, aqueles? Possivelmente, nunca o saberemos, mas tendo em conta o trabalho feito por Manuel Pinho no seu ministério, nenhum daqueles cornos seria, de certeza, o corno da abundância. Podemos não saber que cornos eram, mas temos uma ideia de que cornos, garantidamente, não eram.
O meu sonho é que a economia portuguesa, um dia, venha a ter a importância e a protecção que tem a honra de Bernardino Soares. O ex-ministro já tinha previsto o fim da crise mesmo antes dela se agravar, já tinha apelado ao investimento estrangeiro argumentando que os portugueses ganham pouco, já tinha garantido a salvação de empregos que acabaram por se perder, já tinha até violado a lei (quando fumou a bordo de um avião, na companhia do primeiro-ministro). Nunca teve o lugar em perigo. Mas quem faz corninhos ao Bernardino Soares tem de sair. Será importante não esquecer que Manuel Pinho era Ministro da Economia e da Inovação. E deve assinalar-se o sentido do dever que manteve até ao último minuto em funções: caiu, mas caiu a inovar. Nunca antes um Ministro da Economia havia sido demitido por falta de educação. A um Ministro da Economia não se exige muito – nem sequer que saiba de economia. Entre as regras da civilidade e as da economia, o ministro deve dominar as primeiras. As outras, logo se vê.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
150 anos de prisão? Só?
Opinião

Quinta-feira, 2 de Jul de 2009 – Visão
O sistema de justiça americano, tantas vezes apontado como exemplo, acaba por não ser muito diferente do nosso: Madoff foi condenado a 150 anos; em Portugal, o julgamento duraria 150 anos. As semelhanças são óbvias
A condenação de Bernard Madoff a 150 anos de prisão não pode deixar de indignar todos os que possuem o mais pequeno sentido de justiça: Madoff é o responsável pela maior fraude financeira de sempre e nem assim apanhou prisão perpétua. Como é evidente, é improvável que Madoff cumpra a pena e, aos 221 anos, saia da prisão ainda a tempo de gozar a vida durante um quarto de hora - mas também não era provável que enganasse toda a gente durante 20 anos. Uma coisa é estar preso para sempre; outra é poder sair ao fim de 150 anos. É uma hipótese remota, mas é uma hipótese. Sobretudo se alguém lhe fizer aos anos de prisão o mesmo que ele fez às contas bancárias dos clientes: ao princípio parecem números muito elevados, mas em pouco tempo estão reduzidos a nada. Além do mais, todos sabemos como funciona o sistema: estas pessoas que têm dinheiro para pagar a bons advogados levam 150 anos mas depois, ao fim de 75, já estão cá fora por bom comportamento.
A pena leve de Bernard Madoff tem uma explicação: o julgamento foi feito com um descuido inaceitável. Em seis meses, Madoff foi preso, acusado e julgado. Recordo que se trata da maior fraude de sempre, que durou duas décadas. Ainda assim, foi julgada em meio ano. Oliveira e Costa está preso há sete meses. O caso Casa Pia começou a ser julgado em Novembro de 2004. Seis meses não chegam nem para fazer as bainhas às togas de todos os magistrados envolvidos.
Pela minha parte, registo com surpresa que o sistema de justiça americano, tantas vezes apontado como exemplo, acaba por não ser muito diferente do nosso: Madoff foi condenado a 150 anos; em Portugal, o julgamento duraria 150 anos. As semelhanças são óbvias. Como sabe qualquer leitor de Kafka, certos processos conseguem ser tão penosos como uma sentença. No entanto, como sabe qualquer residente em Portugal, a generalidade dos processos portugueses imita a história de Kafka a contrario: em lugar de um inocente que é submetido a um processo longo, absurdo e excruciante, temos um culpado que é submetido a um processo longo, absurdo e prazenteiro. Josef K. anda de tribunal em tribunal, em Praga, até perceber que o seu processo se arrastará indefinidamente; João Vale e A. anda de casa de luxo em casa de luxo, em Londres, porque já percebeu que o seu processo se arrastará indefinidamente. São histórias muito semelhantes, igualmente absurdas, mas a natureza do processo é ligeiramente diferente. Os processos, em Portugal, só são excruciantes para os queixosos.

Quinta-feira, 2 de Jul de 2009 – Visão
O sistema de justiça americano, tantas vezes apontado como exemplo, acaba por não ser muito diferente do nosso: Madoff foi condenado a 150 anos; em Portugal, o julgamento duraria 150 anos. As semelhanças são óbvias
A condenação de Bernard Madoff a 150 anos de prisão não pode deixar de indignar todos os que possuem o mais pequeno sentido de justiça: Madoff é o responsável pela maior fraude financeira de sempre e nem assim apanhou prisão perpétua. Como é evidente, é improvável que Madoff cumpra a pena e, aos 221 anos, saia da prisão ainda a tempo de gozar a vida durante um quarto de hora - mas também não era provável que enganasse toda a gente durante 20 anos. Uma coisa é estar preso para sempre; outra é poder sair ao fim de 150 anos. É uma hipótese remota, mas é uma hipótese. Sobretudo se alguém lhe fizer aos anos de prisão o mesmo que ele fez às contas bancárias dos clientes: ao princípio parecem números muito elevados, mas em pouco tempo estão reduzidos a nada. Além do mais, todos sabemos como funciona o sistema: estas pessoas que têm dinheiro para pagar a bons advogados levam 150 anos mas depois, ao fim de 75, já estão cá fora por bom comportamento.
A pena leve de Bernard Madoff tem uma explicação: o julgamento foi feito com um descuido inaceitável. Em seis meses, Madoff foi preso, acusado e julgado. Recordo que se trata da maior fraude de sempre, que durou duas décadas. Ainda assim, foi julgada em meio ano. Oliveira e Costa está preso há sete meses. O caso Casa Pia começou a ser julgado em Novembro de 2004. Seis meses não chegam nem para fazer as bainhas às togas de todos os magistrados envolvidos.
Pela minha parte, registo com surpresa que o sistema de justiça americano, tantas vezes apontado como exemplo, acaba por não ser muito diferente do nosso: Madoff foi condenado a 150 anos; em Portugal, o julgamento duraria 150 anos. As semelhanças são óbvias. Como sabe qualquer leitor de Kafka, certos processos conseguem ser tão penosos como uma sentença. No entanto, como sabe qualquer residente em Portugal, a generalidade dos processos portugueses imita a história de Kafka a contrario: em lugar de um inocente que é submetido a um processo longo, absurdo e excruciante, temos um culpado que é submetido a um processo longo, absurdo e prazenteiro. Josef K. anda de tribunal em tribunal, em Praga, até perceber que o seu processo se arrastará indefinidamente; João Vale e A. anda de casa de luxo em casa de luxo, em Londres, porque já percebeu que o seu processo se arrastará indefinidamente. São histórias muito semelhantes, igualmente absurdas, mas a natureza do processo é ligeiramente diferente. Os processos, em Portugal, só são excruciantes para os queixosos.
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quinta-feira, 25 de junho de 2009
As criancinhas explicadas a José Sócrates

As semelhanças entre Sócrates e Obama são cada vez maiores: Obama matou uma mosca durante uma entrevista; Sócrates deu uma entrevista em que parecia uma mosca morta
9:08 Quinta-feira, 25 de Jun de 2009 – Visão
O leitor habitual desta coluna, acostumado aos prodígios estilísticos do autor, já percebeu que, uma vez mais, há malandrice no título - e é da sofisticada. Reparou certamente que se trata da inversão da vulgar fórmula "X explicado às criancinhas" em que, no lugar do X, costuma estar um conceito complicado. Aqui, em lugar de explicar o complexo aos simples, pretende-se explicar os simples ao complexo. Isto supondo que Sócrates é complexo, o que infelizmente não se verifica: é, aliás, por isso que sinto necessidade de lhe explicar como funcionam as coisas simples. Será interessante constatar, no entanto, que Sócrates, não sendo complexo, possui vários complexos. O mais proeminente é, neste momento, o complexo de inferioridade provocado pelos resultados das eleições europeias. O primeiro-ministro sabe que, por culpa própria, parte em desvantagem para as legislativas, e portanto resolveu seguir a estratégia pueril das crianças mal comportadas na véspera de Natal: adoptam a postura suave e sonsa de quem nunca fez traquinices, comem a sopa até ao fim e prometem dotar mais generosamente o orçamento da cultura. A grande maioria dos miúdos, não por acaso, esquece este último ponto: o objectivo do estratagema é agradar, e se há coisa de que as pessoas não gostam é de quem promete dar dinheiro aos artistas. Não devemos esquecer que, em português, a palavra "artista" é polissémica a ponto de permitir designar tanto a Paula Rego como os automobilistas que fazem idiotices no trânsito, sendo que é usada muito mais vezes para caracterizar os segundos do que a primeira.
É incompreensível, portanto, que Sócrates anuncie medidas impopulares tão próximo das eleições. E a atitude mansa e benevolente, além de soar a falso, revela pouco sentido de estado: não me lembro de alguma vez termos tido um primeiro-ministro bonzinho (e sublinho também a polissemia da palavra "bonzinho").
Por outro lado, o novo comportamento do primeiro-ministro aproxima-o dos grandes estadistas. As semelhanças entre Sócrates e Obama são cada vez maiores: Obama matou uma mosca durante uma entrevista; Sócrates deu uma entrevista em que parecia uma mosca morta. Não sei se o leitor viu as imagens: incomodado por uma mosca enquanto falava com um jornalista, Obama esperou que o bicho pousasse e matou-o. Em situação idêntica, o Sócrates dos bons velhos tempos também matava a mosca. E o jornalista. Agora, na impossibilidade de entrar a matar, o primeiro-ministro mortifica-se. Vendo bem, Sócrates não mudou muito: dantes, amesquinhava os outros; agora, reverte o amesquinhamento para si próprio. No fundo, não deixou de amesquinhar. Como é evidente, prefiro o Sócrates original e autêntico: não me importo nada quando amesquinha jornalistas e adversários, mas levo a mal que amesquinhe o primeiro-ministro do meu país. Acho uma indignidade. Sobretudo porque me deixa sem nada para fazer.
quinta-feira, 21 de maio de 2009
O primo Hugo e o primo Basílio

"Ele diz ter sido injustamente acusado de corrupção, e a sua vida transforma-se num pesadelo. Mas quando tudo parece perdido, um primo que foi aprender kung fu na China aparece para o salvar." A vida de José Sócrates parece um filme do Jackie Chan
Quinta-feira, 21 de Mai de 2009 – Visão
"Ele diz ter sido injustamente acusado de corrupção, e a sua vida transforma-se num pesadelo. Mas quando tudo parece perdido, um primo que foi aprender kung fu na China aparece para o salvar." A vida de José Sócrates parece um filme do Jackie Chan. É frequente que as vidas de certos estadistas passem para a tela, mas é menos comum que apareçam transformadas num filme de porrada. Talvez seja pouco subtil representar o combate político através de um combate em sentido literal, mas a vida de José Sócrates parece encaixar muito bem no género das artes marciais. Dentro desses, os de Jackie Chan parecem-me mais fáceis de afeiçoar à vida do primeiro-ministro do que os de Bruce Lee, por exemplo. Estou longe de ser um especialista em filmes de artes marciais, mas tenho a sensação de que Bruce Lee é um herói quase perfeito, ao passo que Jackie Chan, possuindo também bastante talento para aleijar inimigos, é mais apalhaçado e trapalhão, à semelhança de Hugo Monteiro.
Talvez seja importante referir que o comportamento de Hugo Monteiro é, aliás, desrespeitoso para José Sócrates a vários níveis. Primeiro, tentou usar o nome dele para conseguir fechar um negócio. Depois, foi requalificar-se para a China, ignorando ostensivamente o programa Novas Oportunidades, através do qual poderia ter obtido formação no nosso país. Além disso, tenta salvar o primo dando uma entrevista na qual faz conjecturas que o desmentem. Sócrates garantiu várias vezes que não conhece Charles Smith; Hugo Monteiro acha que tiveram uma reunião juntos. O primo de Sócrates é a prova de que os chineses não podem nada contra nós: é possível submeter um português ao ensino das artes marciais, à meditação, ao contacto com a sabedoria e a sensatez orientais - mas ele continuará a ser sempre um tuga.
A entrevista de Hugo Monteiro acabou, por isso, por se revelar desastrosa. Eu não via um primo a perturbar tanto uma família desde o primo Basílio. O último veio de França flanar para cá; o primeiro foi de cá flanar para a China. Nenhum é especialmente dotado para os negócios, mas têm ambos à-vontade financeiro para dedicar uns meses largos ao adultério e ao kung fu. Um pratica uma actividade que eleva o espírito e esfalfa o corpo, mas o kung fu do primo Hugo também deve cansar.
O retiro chinês de Hugo Monteiro acabará por lhe ser útil: as lições de kung fu ser-lhe-ão certamente úteis quando, depois de chegar a Portugal, for ter com o primo primeiro-ministro para, como já prometeu que faria, lhe pedir desculpa. Hugo Monteiro conhece bem o primo. Sabe que não lhe adiantaria fugir dele, porque Sócrates treina a corrida várias vezes por semana. Ir aprender maratona para o Quénia não lhe teria servido de nada. A única solução é aprender kung fu na China e defender-se o melhor que puder quando o primeiro-ministro o apanhar.
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quinta-feira, 14 de maio de 2009
Recentrar a questão do Bloco Central
Opinião

Quinta-feira, 14 de Mai de 2009 – Visão
A ideia de que o Bloco Central é uma solução sensata, por oposição às propostas irrealizáveis dos partidos dos extremos, dá vontade de rir: pois, pois, o comunismo é utópico, mas a coabitação leal e pacífica de Sócrates e Ferreira Leite é simples bom senso. Está bem. Contem-me outra
Desejar um governo de Bloco Central é como ser do Benfica e do Sporting. Trata-se de uma aberração política que merece, evidentemente, o mais profundo desdém. Ou, no caso da comunicação social, a mais elevada atenção, mesmo que a proposta não passe de uma fantasia que ninguém leva especialmente a sério. O destaque que os media têm dado à hipótese de constituição do Bloco Central é o equivalente jornalístico da actividade daqueles cães que correm um quilómetro seguido a ladrar a um pneu. É possível, no entanto, que os cães se atirem às rodas com um pouco mais de argúcia. O que acabo de expor é uma das razões que me levam a pretender recentrar a questão do Bloco Central. A outra razão é o encanto que reside no acto de recentrar. Já se recentrou mais na política portuguesa. Recentravam-se, sobretudo, debates. Em determinado ponto de uma discussão, um dos intervenientes manifestava a intenção de recentrar o debate. Essa atitude dizia tanto sobre o debate como sobre o interveniente: sobre o debate, mostrava que, devido à acção dos outros participantes, se tinha descentrado; sobre o interveniente recentrador, revelava que tinha não só o discernimento de perceber a descentralização actual do debate, como a capacidade de o recentrar devidamente. A recentralização do problema do Bloco Central passa pela explicação da impossibilidade do Bloco Central. Uma tarefa, apesar de tudo, fácil: o leitor que conte os casos de militantes que trocaram o PCP pelo PS, e de militantes do CDS que se juntaram ao PSD. São inúmeros. Mas são muito mais raros aqueles que trocaram o PSD pelo PS e vice-versa: de facto, são os partidos mais distantes um do outro, justamente porque acabam por estar no mesmo sítio. Não faz sentido trocar um pelo outro. É como trocar o nosso carro por um exactamente igual, com o mesmo número de quilómetros e o mesmo barulho na panela de escape. É evidente que aquela gente não se pode ver. Eles têm exactamente a mesma visão do País e as mesmas soluções. A razão pela qual uns são poder e os outros oposição é realmente incompreensível, e eles revezam-se a invejarem-se e a lamentar a própria sorte.
A ideia de que o Bloco Central é uma solução sensata, por oposição às propostas irrealizáveis dos partidos dos extremos, dá vontade de rir: pois, pois, o comunismo é utópico, mas a coabitação leal e pacífica de Sócrates e Ferreira Leite é simples bom senso. Está bem. Contem-me outra. Mais depressa faz sentido, portanto, um governo de Bloco Lateral. PCP e CDS unidos num executivo coeso, que pugnasse pelas melhores condições para os trabalhadores e também pelo máximo de direitos para os patrões. Ora aqui está uma ideia com valor. Vejam como, escassos minutos depois de recentrar o problema, a solução se apresenta.

Quinta-feira, 14 de Mai de 2009 – Visão
A ideia de que o Bloco Central é uma solução sensata, por oposição às propostas irrealizáveis dos partidos dos extremos, dá vontade de rir: pois, pois, o comunismo é utópico, mas a coabitação leal e pacífica de Sócrates e Ferreira Leite é simples bom senso. Está bem. Contem-me outra
Desejar um governo de Bloco Central é como ser do Benfica e do Sporting. Trata-se de uma aberração política que merece, evidentemente, o mais profundo desdém. Ou, no caso da comunicação social, a mais elevada atenção, mesmo que a proposta não passe de uma fantasia que ninguém leva especialmente a sério. O destaque que os media têm dado à hipótese de constituição do Bloco Central é o equivalente jornalístico da actividade daqueles cães que correm um quilómetro seguido a ladrar a um pneu. É possível, no entanto, que os cães se atirem às rodas com um pouco mais de argúcia. O que acabo de expor é uma das razões que me levam a pretender recentrar a questão do Bloco Central. A outra razão é o encanto que reside no acto de recentrar. Já se recentrou mais na política portuguesa. Recentravam-se, sobretudo, debates. Em determinado ponto de uma discussão, um dos intervenientes manifestava a intenção de recentrar o debate. Essa atitude dizia tanto sobre o debate como sobre o interveniente: sobre o debate, mostrava que, devido à acção dos outros participantes, se tinha descentrado; sobre o interveniente recentrador, revelava que tinha não só o discernimento de perceber a descentralização actual do debate, como a capacidade de o recentrar devidamente. A recentralização do problema do Bloco Central passa pela explicação da impossibilidade do Bloco Central. Uma tarefa, apesar de tudo, fácil: o leitor que conte os casos de militantes que trocaram o PCP pelo PS, e de militantes do CDS que se juntaram ao PSD. São inúmeros. Mas são muito mais raros aqueles que trocaram o PSD pelo PS e vice-versa: de facto, são os partidos mais distantes um do outro, justamente porque acabam por estar no mesmo sítio. Não faz sentido trocar um pelo outro. É como trocar o nosso carro por um exactamente igual, com o mesmo número de quilómetros e o mesmo barulho na panela de escape. É evidente que aquela gente não se pode ver. Eles têm exactamente a mesma visão do País e as mesmas soluções. A razão pela qual uns são poder e os outros oposição é realmente incompreensível, e eles revezam-se a invejarem-se e a lamentar a própria sorte.
A ideia de que o Bloco Central é uma solução sensata, por oposição às propostas irrealizáveis dos partidos dos extremos, dá vontade de rir: pois, pois, o comunismo é utópico, mas a coabitação leal e pacífica de Sócrates e Ferreira Leite é simples bom senso. Está bem. Contem-me outra. Mais depressa faz sentido, portanto, um governo de Bloco Lateral. PCP e CDS unidos num executivo coeso, que pugnasse pelas melhores condições para os trabalhadores e também pelo máximo de direitos para os patrões. Ora aqui está uma ideia com valor. Vejam como, escassos minutos depois de recentrar o problema, a solução se apresenta.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
A importância política do sopapo
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Os calvários do PS são razoavelmente monotemáticos, mas muito eficazes: Sócrates enfrenta uma campanha negra; Vital arrisca ficar todo negro durante a campanha
O PS exige que o PCP peça desculpa pela agressão de que Vital Moreira foi alvo. O PCP exige que o PS peça desculpa por declarar que o PCP foi responsável pela agressão. Eu peço desculpa mas tenho dificuldade em compreender os pedidos de desculpa. Parece claro que a agressão a Vital Moreira agradou a toda a gente: os comunistas que lhe deram uns safanões puderam satisfazer um desejo muito antigo; os socialistas obtiveram outro mártir. Os calvários do PS são razoavelmente monotemáticos, mas muito eficazes: Sócrates enfrenta uma campanha negra; Vital arrisca ficar todo negro durante a campanha. Depois da campanha negra, a campanha das nódoas negras. Não há negrume que não aflija o PS.
É evidente, por isso, que só por estúpido sectarismo político um episódio edificante como este pode dividir os partidos. Num dos raros momentos da vida política portuguesa em que todos têm motivos para se regozijar, ainda assim a politiquice impede os partidos de saborearem, unidos, as cenas de pancadaria entre os seus militantes. É triste, mas é o país que temos.
Além do mais, a agressão a Vital Moreira nega a ideia da morte das ideologias e da luta política. Como se vê, a luta política existe no sentido próprio da expressão, o que se saúda. E, na minha opinião, quando a luta política tem mais de luta do que de política, os cidadãos têm mais vontade de participar. Os portugueses interessam-se muito mais por um debate político se puderem aglomerar-se em redor dos candidatos a gritar: "POR-RA-DA! POR-RA-DA! POR-RA-DA!"
É incompreensível, por isso, que o PCP não queira admitir a responsabilidade pelo acto profundamente democrático do seu militante ou simpatizante, especialmente na medida em que estamos perante uma das características que distinguem o PCP dos outros partidos: os comunistas nunca ganharam uma eleição nacional, mas têm um talento particular para bater no candidato vencedor. Foi assim na Marinha Grande, quando um alegado comunista deu o tabefe que levou Soares à presidência, e será assim nas europeias, que o PS de Vital Moreira, previsivelmente, vencerá. Levando tudo isto em consideração, é inconcebível que um militante do PCP não tenha ainda tido a ideia de aplicar uma valente carga de pancada em Jerónimo de Sousa. Se o PCP estivesse verdadeiramente empenhado em ganhar eleições, já teria espancado o seu líder. A maior parte do povo português não vota em quem os comunistas votam, mas empenha-se em eleger qualquer pessoa em que eles batam.
Quinta-feira, 7 de Maio de 2009- Visão

Os calvários do PS são razoavelmente monotemáticos, mas muito eficazes: Sócrates enfrenta uma campanha negra; Vital arrisca ficar todo negro durante a campanha
O PS exige que o PCP peça desculpa pela agressão de que Vital Moreira foi alvo. O PCP exige que o PS peça desculpa por declarar que o PCP foi responsável pela agressão. Eu peço desculpa mas tenho dificuldade em compreender os pedidos de desculpa. Parece claro que a agressão a Vital Moreira agradou a toda a gente: os comunistas que lhe deram uns safanões puderam satisfazer um desejo muito antigo; os socialistas obtiveram outro mártir. Os calvários do PS são razoavelmente monotemáticos, mas muito eficazes: Sócrates enfrenta uma campanha negra; Vital arrisca ficar todo negro durante a campanha. Depois da campanha negra, a campanha das nódoas negras. Não há negrume que não aflija o PS.
É evidente, por isso, que só por estúpido sectarismo político um episódio edificante como este pode dividir os partidos. Num dos raros momentos da vida política portuguesa em que todos têm motivos para se regozijar, ainda assim a politiquice impede os partidos de saborearem, unidos, as cenas de pancadaria entre os seus militantes. É triste, mas é o país que temos.
Além do mais, a agressão a Vital Moreira nega a ideia da morte das ideologias e da luta política. Como se vê, a luta política existe no sentido próprio da expressão, o que se saúda. E, na minha opinião, quando a luta política tem mais de luta do que de política, os cidadãos têm mais vontade de participar. Os portugueses interessam-se muito mais por um debate político se puderem aglomerar-se em redor dos candidatos a gritar: "POR-RA-DA! POR-RA-DA! POR-RA-DA!"
É incompreensível, por isso, que o PCP não queira admitir a responsabilidade pelo acto profundamente democrático do seu militante ou simpatizante, especialmente na medida em que estamos perante uma das características que distinguem o PCP dos outros partidos: os comunistas nunca ganharam uma eleição nacional, mas têm um talento particular para bater no candidato vencedor. Foi assim na Marinha Grande, quando um alegado comunista deu o tabefe que levou Soares à presidência, e será assim nas europeias, que o PS de Vital Moreira, previsivelmente, vencerá. Levando tudo isto em consideração, é inconcebível que um militante do PCP não tenha ainda tido a ideia de aplicar uma valente carga de pancada em Jerónimo de Sousa. Se o PCP estivesse verdadeiramente empenhado em ganhar eleições, já teria espancado o seu líder. A maior parte do povo português não vota em quem os comunistas votam, mas empenha-se em eleger qualquer pessoa em que eles batam.
Quinta-feira, 7 de Maio de 2009- Visão
quinta-feira, 30 de abril de 2009
Uma córnea que prestigia

Deus não salva ninguém das grandes catástrofes naturais. E, no entanto, Nuno Álvares Pereira intercedeu em nome d'Ele para curar a córnea de Guilhermina de Jesus. Como entender, então, a façanha oftalmológica do novo santo?
A canonização de D. Nuno Álvares Pereira é, evidentemente, um motivo de orgulho para o País. O milagre que o novo santo operou em Guilhermina de Jesus, de 65 anos, natural de Vila Franca de Xira, pode não ser dos maiores - mas conta. A senhora estava em casa a fritar peixe quando um respingo de óleo a ferver lhe lesionou o olho esquerdo. Nuno Álvares viu a conjuntura propícia à santidade, e não falhou: curou-lhe a úlcera na córnea e prestigiou-se a si e a nós. Os portugueses sempre tiveram uma grande capacidade de se prestigiarem por interposto compatriota. Normalmente, o compatriota está vivo e pratica um desporto qualquer, mas um homem que está morto vai para 580 anos e cura úlceras na córnea a partir da eternidade também prestigia.
Contudo, receio bem que D. Nuno Álvares Pereira, que é santo há tão pouco tempo, já esteja a arranjar problemas com colegas que são santos há mais de 1500 anos. Refiro-me especificamente a Santo Agostinho, o santo que explicou a razão pela qual Deus, sendo embora omnipotente, omnisciente, omnipresente e infinitamente bom, permite que haja mal no mundo. A razão é o livre arbítrio: Deus concedeu a liberdade ao homem, que desfruta dela como entende, e é por isso que Ele não intervém quando os homens se matam uns aos outros. Ficou explicada a existência do mal moral. E o mal natural explica-se da mesma maneira: as catástrofes naturais são, também elas, causadas pela liberdade concedida por Deus, desta vez a Satanás e seus acólitos. É por isso, dizia Santo Agostinho, que Deus não salva ninguém das grandes catástrofes naturais, sejam elas um tsunami, um terramoto, ou um respingo de óleo a ferver para o olho. E, no entanto, Nuno Álvares Pereira intercedeu em nome d'Ele para curar a córnea de Guilhermina de Jesus. Como entender, então, a façanha oftalmológica do novo santo? Talvez Deus tenha interrompido por momentos o princípio do livre arbítrio para permitir a ocorrência de uma acção pedagógica. Pode ter sido um trabalho de equipa: Deus alerta Guilhermina de Jesus para os malefícios dos fritos respingando-lhe óleo a ferver para o olho, e Nuno Álvares, depois de aprendida a lição, intervém para lhe salvar a córnea. Os caminhos do Senhor são misteriosos e, como é cada vez mais evidente, até Santo Agostinho se perde neles.
O que interessa é que o milagre foi feito, registado, e levado em conta na beatificação de Nuno Álvares Pereira, para gáudio de Cavaco Silva. O Presidente da República suspendeu por instantes o preceito da separação entre Estado e Igreja e integrou a comissão de honra da canonização. Há quem diga que as congratulações do Presidente da República a propósito de um caso estritamente religioso violam o princípio da laicidade do Estado, mas se Deus interrompeu o livre arbítrio para prestigiar o nosso país, o mínimo que o Presidente pode fazer é mandar a laicidade às malvas para agradecer.
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quinta-feira, 5 de março de 2009
O congresso da falta de educação

Visão - 5 de Mar de 2009
Curiosa improbabilidade ideológica: grande partido da esquerda democrática convidou o Partido Comunista Chinês para o seu congresso
Julgo não estar longe da verdade se disser que os congressos partidários são das mais belas celebrações da democracia. Claro, a liberdade de expressão é bonita, e a possibilidade de eleger livremente um Governo é interessante, mas os congressos são um fim-de-semana prolongado de tolice democrática. Animam muito. Eis a razão pela qual custa compreender que estas excelentes festas de propaganda sejam constantemente marcadas por uma incivilidade tão violenta. Foi o caso do recente congresso do Partido Socialista. A imodéstia dos congressistas do PS é chocante, e a indelicadeza dos convidados dos outros partidos é igualmente deplorável. Para os primeiros, o congresso foi extremamente importante, por razões de tal modo evidentes que nunca são referidas; para os segundos, o congresso foi uma oportunidade perdida, no que se distinguiu, parece, dos outros congressos partidários, que ficaram conhecidos pela extraordinária utilidade e influência que tiveram na história de Portugal. Os últimos não tiveram uma palavra de agradecimento por terem sido convidados para a casa do PS - nem sequer aquelas frases de circunstância que qualquer convidado dirige ao anfitrião: nem um "esteve-se bem", nem um "obrigado por este bocadinho", nem uma menção simpática à qualidade dos croquetes - nada. Os primeiros não souberam temperar o entusiasmo, que é legítimo em quem acaba de organizar uma festa na qual Stevie Wonder e Dionne Warwick celebram o trabalho partidário de Vítor Constâncio, Jorge Sampaio e tantos outros, com um pouco de humildade, que também fica bem.
Julgo não estar longe da verdade se disser que os congressos partidários são das mais belas celebrações da democracia. Claro, a liberdade de expressão é bonita, e a possibilidade de eleger livremente um Governo é interessante, mas os congressos são um fim-de-semana prolongado de tolice democrática. Animam muito. Eis a razão pela qual custa compreender que estas excelentes festas de propaganda sejam constantemente marcadas por uma incivilidade tão violenta. Foi o caso do recente congresso do Partido Socialista. A imodéstia dos congressistas do PS é chocante, e a indelicadeza dos convidados dos outros partidos é igualmente deplorável. Para os primeiros, o congresso foi extremamente importante, por razões de tal modo evidentes que nunca são referidas; para os segundos, o congresso foi uma oportunidade perdida, no que se distinguiu, parece, dos outros congressos partidários, que ficaram conhecidos pela extraordinária utilidade e influência que tiveram na história de Portugal. Os últimos não tiveram uma palavra de agradecimento por terem sido convidados para a casa do PS - nem sequer aquelas frases de circunstância que qualquer convidado dirige ao anfitrião: nem um "esteve-se bem", nem um "obrigado por este bocadinho", nem uma menção simpática à qualidade dos croquetes - nada. Os primeiros não souberam temperar o entusiasmo, que é legítimo em quem acaba de organizar uma festa na qual Stevie Wonder e Dionne Warwick celebram o trabalho partidário de Vítor Constâncio, Jorge Sampaio e tantos outros, com um pouco de humildade, que também fica bem.
Tirando a descortesia, o que se reteve da reunião magna dos militantes do PS? Por um lado, uma curiosa improbabilidade ideológica: o grande partido da esquerda democrática convidou o Partido Comunista Chinês para o seu congresso. Já se sabia que o grande partido da esquerda democrática era, na melhor das hipóteses, do centro relativamente autoritário. Mas não era público que apreciava a companhia da esquerda ditatorial.
Por outro lado, deve sublinhar-se a coragem de José Sócrates, quando pediu que fosse o povo, através do voto, a julgar o caso Freeport. É uma proposta ousada na medida em que os casos de justiça costumam ser julgados em tribunal. E arriscada porque, até hoje, nenhum tribunal condenou Sócrates, mas eu conheço muita gente do povo que acha que ele tem pinta de ser culpado.
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
A reconquista cristã do casamento

O que não falta na Figueira da Foz são donzelas cristãs que, após uma tarde de apostas na roleta, desejam unir-se em casamento com um seguidor do islamismo
Mais de um milénio depois, os mouros estão de volta a Portugal e desta vez querem casar connosco. Em 711 vieram para lutar; agora vêm para contrair matrimónio o que, pensando bem, é quase a mesma coisa, se não for mais sangrento. Por sorte, os cruzados continuam de atalaia e, depois de terem rechaçado a invasão da Península Ibérica, parecem prontos a impedir esta nova e igualmente perniciosa invasão das conservatórias.
Pessoalmente, confesso que não dei por nada. Só sei que os mouros voltaram porque, no espaço de pouco mais de um mês, dois cardeais foram ao Casino da Figueira precatar as moças católicas contra os perigos do casamento com muçulmanos. Eu não conheço uma única senhora que pretenda desposar um muçulmano, nem imagino a razão pela qual os mouros, aparentemente, preferem noivas católicas frequentadoras de casinos. Mas a verdade é que, tendo em conta a frequência dos avisos e o local em que eles são emitidos, o que não falta na Figueira da Foz são donzelas cristãs que, após uma tarde de apostas na roleta, desejam unir-se em casamento com um seguidor do islamismo.
Vivemos em tempos estranhos.
A única senhora com a qual travei conhecimento que casou com um mouro chamava-se Desdémona, e realmente viria a ser assassinada pelo marido, mas não é menos verdade que o principal responsável pela sua morte foi um cristão especialmente pérfido. Suponho que aconselhar as raparigas a evitarem o casamento com mouros que tenham subordinados cristãos particularmente malévolos seja menos eficaz, e até pouco prático, mas de acordo com a minha experiência pessoal é, de facto, o mais apropriado.
Não quero com isto dizer que desconsiderei as recomendações dos cardeais.
Pelo contrário, tomei-as a sério: nunca ninguém me há-de ver casado com um muçulmano. Até porque conheço bem o perigo que corremos quando nos relacionamos com pessoas que interpretam literalmente os textos sagrados, como fazem muitos muçulmanos e o cardeal Saraiva Martins. Mas, em Dezembro de 2007, D. José Policarpo disse que o maior drama da humanidade era o ateísmo. Pouco mais de um ano depois, vem alertar as portuguesas para os malefícios do casamento com gente que acredita e muito em Deus, e esquece-se do perigo que representam os incréus. Não digo que, para impedir os casamentos entre católicas e ateus, volte a entrar num casino. Mas custa-me a compreender que não interrompa ao menos um jogo de poker para avisar as jovens católicas que pretendem casar-se com quem professa o maior drama da humanidade. A minha mulher deveria ter tido a oportunidade de saber o monte de sarilhos em que se ia meter. Estar casada com um palerma que não deseja matá-la por causa das suas convicções religiosas é um drama pelo qual nenhum ser humano devia ser obrigado a passar.
Visão – 26.02.2009
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Boca do Inferno

Crónica de Ricardo Araújo Pereira
Visão – 12 de Fevereiro de 2009
O MAIOR PARTIDO DA OPOSIÇÃO A SI MESMO
Parece evidente a razão pela qual o PSD não consegue agradar aos portugueses: o PSD tem dificuldade em agradar aos militantes do PSD
Se José Sócrates tivesse tanto talento para elevar os índices de crescimento do País como tem para fazer crescer o PS nas sondagens, Portugal era a Noruega. Por outro lado, mesmo com o País mergulhado na crise e o Governo atolado em escândalos, as sondagens continuam a ser antipáticas para o PSD. É possível que os cidadãos estejam descontentes com o Governo, mas uma vez que a orientação política deste PS é tão semelhante à do PSD, talvez os eleitores fiquem na dúvida sobre quem devem penalizar. Creio, aliás, que a grande divergência entre o PSD e o Governo não é política. Aquilo que os sociais-democratas não perdoam é isto: o que José Sócrates fez ao País não se compara com o que fez ao PSD.
Tirando Sócrates, há dois ou três factores que podem explicar o divórcio entre o povo e o PSD. O primeiro é que, para o PSD, não existe povo. Manuela Ferreira Leite não diz a palavra «povo». A presidente do PSD dirige-se sempre às «populações». Talvez as populações votem no PSD, mas o povo não parece especialmente interessado em fazê-lo. E, enquanto Portugal tiver mais povo do que populações, isso pode constituir um problema grave.
Em segundo lugar, parece evidente a razão pela qual o PSD não consegue agradar aos portugueses: o PSD tem dificuldade em agradar aos militantes do PSD. Manuela Ferreira Leite não satisfaz os críticos, mas isso é habitual: enquanto um líder partidário não está no poder, aqueles que se lhe opõem no seio do próprio partido abominam todas as suas opções. Só quando o líder forma Governo é que os críticos começam paulatinamente a descobrir fortes pontos de convergência nos quais nunca tinham reparado. Não surpreende, por isso, que, por enquanto, Passos Coelho e Luís Filipe Menezes discordem das sistematicamente opções de Manuela Ferreira Leite, incluindo da opção de dizer «Bom dia». Mais surpreendente é que sejam os próprios apoiantes de Ferreira Leite a discordar dela. Marcelo acha que a presidente prejudica o partido e está a levá-lo para o abismo, e Pacheco Pereira deplora a escolha de Santana Lopes para a Câmara de Lisboa, embora seja certo que Pacheco Pereira deplora quase tudo o que se passa em todo o lado.
Em todo o caso, é particularmente irónico que os sociais-democratas vivam tempos tão difíceis precisamente na altura em que se encontra na política activa aquele que é, porventura, o mais bem sucedido político de sempre do PSD. Só é pena que ele seja secretário-geral do PS.
Parece evidente a razão pela qual o PSD não consegue agradar aos portugueses: o PSD tem dificuldade em agradar aos militantes do PSD
Se José Sócrates tivesse tanto talento para elevar os índices de crescimento do País como tem para fazer crescer o PS nas sondagens, Portugal era a Noruega. Por outro lado, mesmo com o País mergulhado na crise e o Governo atolado em escândalos, as sondagens continuam a ser antipáticas para o PSD. É possível que os cidadãos estejam descontentes com o Governo, mas uma vez que a orientação política deste PS é tão semelhante à do PSD, talvez os eleitores fiquem na dúvida sobre quem devem penalizar. Creio, aliás, que a grande divergência entre o PSD e o Governo não é política. Aquilo que os sociais-democratas não perdoam é isto: o que José Sócrates fez ao País não se compara com o que fez ao PSD.
Tirando Sócrates, há dois ou três factores que podem explicar o divórcio entre o povo e o PSD. O primeiro é que, para o PSD, não existe povo. Manuela Ferreira Leite não diz a palavra «povo». A presidente do PSD dirige-se sempre às «populações». Talvez as populações votem no PSD, mas o povo não parece especialmente interessado em fazê-lo. E, enquanto Portugal tiver mais povo do que populações, isso pode constituir um problema grave.
Em segundo lugar, parece evidente a razão pela qual o PSD não consegue agradar aos portugueses: o PSD tem dificuldade em agradar aos militantes do PSD. Manuela Ferreira Leite não satisfaz os críticos, mas isso é habitual: enquanto um líder partidário não está no poder, aqueles que se lhe opõem no seio do próprio partido abominam todas as suas opções. Só quando o líder forma Governo é que os críticos começam paulatinamente a descobrir fortes pontos de convergência nos quais nunca tinham reparado. Não surpreende, por isso, que, por enquanto, Passos Coelho e Luís Filipe Menezes discordem das sistematicamente opções de Manuela Ferreira Leite, incluindo da opção de dizer «Bom dia». Mais surpreendente é que sejam os próprios apoiantes de Ferreira Leite a discordar dela. Marcelo acha que a presidente prejudica o partido e está a levá-lo para o abismo, e Pacheco Pereira deplora a escolha de Santana Lopes para a Câmara de Lisboa, embora seja certo que Pacheco Pereira deplora quase tudo o que se passa em todo o lado.
Em todo o caso, é particularmente irónico que os sociais-democratas vivam tempos tão difíceis precisamente na altura em que se encontra na política activa aquele que é, porventura, o mais bem sucedido político de sempre do PSD. Só é pena que ele seja secretário-geral do PS.
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
UMA CAMPANHA NEGRA ALEGRE
Boca do InfernoCrónica de Ricardo Araújo Pereira
Visão 05-02-2009
UMA CAMPANHA NEGRA ALEGRE
Esta campanha, na eventualidade de ser real, é a iniciativa mais bem planeada, organizada e executada da política portuguesa
Às vezes um ministro engana-se e diz que está em Mafamude quando na realidade se encontra em Gulpilhares. A oposição não perdoa: manifesta indignação porque são duas freguesias de Vila Nova de Gaia absolutamente inconfundíveis, condena a ofensa sem nome que foi feita à boa gente de Gulpilhares (e, até certo ponto, também à de Mafamude), chama o ministro ao Parlamento para que justifique o lapso inaceitável, exige ao chefe de Governo que demita o ministro e ao Chefe de Estado que convoque eleições antecipadas com carácter de urgência.
Esta campanha, na eventualidade de ser real, é a iniciativa mais bem planeada, organizada e executada da política portuguesa
Às vezes um ministro engana-se e diz que está em Mafamude quando na realidade se encontra em Gulpilhares. A oposição não perdoa: manifesta indignação porque são duas freguesias de Vila Nova de Gaia absolutamente inconfundíveis, condena a ofensa sem nome que foi feita à boa gente de Gulpilhares (e, até certo ponto, também à de Mafamude), chama o ministro ao Parlamento para que justifique o lapso inaceitável, exige ao chefe de Governo que demita o ministro e ao Chefe de Estado que convoque eleições antecipadas com carácter de urgência.
Agora, que recaem suspeitas graves sobre José Sócrates, o PSD veio dizer que tem toda a confiança institucional no senhor primeiro-ministro, Luís Nobre Guedes, do CDS, manifestou apoio e solidariedade e o resto da oposição não disse nada de especial. Quando rebentou o escândalo BPN, foi parecido. Era difícil distinguir a lista de envolvidos nos negócios pouco claros do banco de um conselho de ministros do Governo de Cavaco Silva. O sonho de qualquer militante do PS. E que disse o PS? Nada de especial. Parece evidente que a melhor maneira de promover a concórdia e a cooperação estratégica dos principais partidos é acusar os seus dirigentes de ilícitos graves. Os adversários políticos não perdoam a quem comete lapsos menores, mas dão a mão a quem é acusado de delitos graves. São feitios.
A campanha negra, a existir, aparenta ser fruto de geração espontânea. Não há quem não repudie o ataque cobarde e ignóbil a José Sócrates, e andar simultaneamente a orquestrar e a repudiar o ataque seria especialmente cobarde e ignóbil. Mesmo para políticos. Em todo o caso, mais do que investigar o caso Freeport, eu gostaria que fosse investigada a campanha negra sobre o caso Freeport. Os conspiradores, se existem, devem ser detidos. E, depois, condecorados. Isto porque esta campanha negra, na eventualidade de ser real, é a iniciativa mais bem planeada, organizada e executada da política portuguesa. Portugal precisa de gente com este talento e esta capacidade de trabalho na vida política. São profissionais competentes na política, porque sabem escolher os factos mais delicados e a altura mais prejudicial para os revelar, são fortes na diplomacia e nos negócios estrangeiros, pela facilidade com que envolveram a polícia inglesa, e são rigorosos a ponto de desencantarem mails com mais de três anos quando eu tenho dificuldade em lembrar-me dos que recebi ontem. Menos dos que incluem fotografias de senhoras nuas. É possível que os autores da campanha negra sejam os melhores políticos portugueses das últimas cinco ou seis décadas.
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Os casos Freeport
Boca do Inferno – Ricardo Araújo PereiraOpinião
A quem interessa um outlet com lojas de roupa de marca mais baratas perto de Lisboa? Ao sexto homem mais elegante do mundo, certamente
Que dizer do caso Freeport que ainda não tenha sido referido por outros? Eis um problema que não afecta este vosso amigo. Vasco Pulido Valente, Pacheco Pereira e eu temos a mesma sorte: acontece com muita frequência os cronistas que nos precedem falharem o essencial. Entretêm-se com o supérfluo, esmiúçam os aspectos menos importantes dos assuntos e deixam, livre de toda a palha, o núcleo essencial dos problemas à mercê de ser colhido por nós. Foi o que sucedeu com o caso Freeport. Analistas atrás de analistas têm vindo a ignorar o facto central de todo este processo: Sócrates diz Freepor. Este é o primeiro ponto essencial que ninguém referiu. Toda a gente diz Freeport, menos José Sócrates, que diz Freepor. Parece claro, por isso, que Sócrates recusa revelar tudo neste caso, nomeadamente o t final de Freeport, que nunca articula. Parece impossível que um político que tanto se tem batido pelo ensino do inglês não seja capaz de pronunciar correctamente uma palavra inglesa. Portugal assiste, portanto, a dois casos em vez de um: o caso Freeport e o caso Freepor. Este último – que, recordemos, foi denunciado por mim –, acaba por ser mais rico e intrigante do que o primeiro, porquanto junta às suspeitas de corrupção o mistério do desaparecimento de uma consoante. Além disso, entronca num caso antigo, na medida em que recupera as dúvidas que existiam quanto às competências do primeiro-ministro no âmbito do inglês técnico.
O segundo ponto essencial que a imprensa tem esquecido é o motivo. Sócrates tinha ou não uma razão forte e privada para favorecer a construção do Freeport? Não é preciso pensar muito para concluir que sim. A quem interessa um outlet com lojas de roupa de marca mais barata perto de Lisboa? Ao sexto homem mais elegante do mundo, certamente. O Freeport permite-lhe manter a mesma elegância, mas a preços mais baixos. Não sei se o primeiro-ministro cometeu alguma infracção ética ou até algum delito no caso Freeport, mas não deve ser menosprezada a ambição, inerente à condição humana, de ultrapassar o Karl Lagerfeld em garbo.
O terceiro ponto menosprezado pela comunicação social tem a ver com o facto que precipitou a investigação. Ao que parece, o juiz desconfiou do modo como o projecto foi licenciado. De acordo com a descrição do magistrado, tudo se passou de forma impecável, célere e competente. Estava à vista de todos que alguma coisa estava mal. Em Portugal, este costuma ser um bom método para descobrir ilegalidades. Se um projecto é aprovado dentro do prazo, alguém anda a receber dinheiro por fora. Normalmente, quando alguma coisa corre bem, é sinal de que há moscambilha.
[Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009 – Visão]
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
YES WE CÃO!

Boca do Inferno – Ricardo Araújo Pereira
Opinião
Se, por esta altura, o cão de origem portuguesa já fosse o animal de estimação da família Obama, boa parte dos nossos jornais exibiriam uma fotografia da tomada de posse e a legenda: «Preto jura a constituição sob o olhar do Bolinhas»
Opinião
Se, por esta altura, o cão de origem portuguesa já fosse o animal de estimação da família Obama, boa parte dos nossos jornais exibiriam uma fotografia da tomada de posse e a legenda: «Preto jura a constituição sob o olhar do Bolinhas»
Apesar do silêncio ciumento que os meios de comunicação internacionais lançaram sobre o assunto, a notícia mais importante da actualidade não escapou aos nossos jornalistas: em princípio, existe a possibilidade de, se calhar, Obama vir a ter talvez um cão quiçá português. Há reportagens sobre criadores, entrevistas com veterinários, perfis de exemplares da raça. E é quase certo que se está a preparar uma investigação de fundo sobre a displasia da anca e carraças em geral.
Que Obama teve a capacidade de mobilizar os americanos toda a gente sabia; que seria capaz de mobilizar os portugueses era mais difícil de prever. Aos americanos, prometeu livrá-los da pior crise de que há memória; a nós, disse que ia arranjar um cão. Para uns, houve oratória empolgante, patriotismo místico, um projecto histórico comum; para outros, tomem lá um bicho. Bicho esse que é nosso compatriota mas que, ainda assim, continua sendo um bicho. Não se pode dizer que sejamos um povo ao qual é difícil agradar.
No entanto, a manobra, apesar de engenhosa, pode sair cara a Obama. É verdade que conquistou o povo português usando a estratégia com que os pais conquistam filhos de seis anos. Mas, uma vez adquirido o animal, o nosso herói deixará de ser Obama. Depois do Manchester de Cristiano Ronaldo e do Inter de Mourinho, também os Estados Unidos serão doravante designados como a América de Bobi. Continuará a haver cimeiras, mas os chefes de Estado reunir-se-ão na Casa Branca de Piloto.
E os encontros decorrerão, de certeza, na Sala Oval de Pantufa. Qualquer vitória de Obama será também nossa, por via canina. Atrás de um grande homem há sempre um grande canídeo, como diz o ditado.
A sorte de Obama é não ter tomado uma decisão definitiva sobre o bicho antes da cerimónia de investidura como novo Presidente. Se, por esta altura, o cão de origem portuguesa já fosse o animal de estimação da família Obama, boa parte dos nossos jornais exibiriam uma fotografia da tomada de posse e a legenda: «Preto jura a constituição sob o olhar do Bolinhas.» Bom, talvez não esteja a ser rigoroso. Para efeitos de comédia, distorci a tendência subtil dos jornais nacionais para celebrar tudo o que é português no estrangeiro. O mais provável é que a legenda dissesse «sob o olhar inteligente e meigo do Bolinhas».
Ficaria triste, contudo, se o leitor concluísse daqui que alguma coisa me move contra o putativo cão português de Barack Obama. Nada disso. Será mais um a prestigiar o País no estrangeiro, a levar o nome de Portugal mais longe – e, tenho a certeza, com uma dignidade de que poucos se podem gabar. É certo que será mais um português a quem o Presidente americano dará ordens e ensinará a rebolar quando quiser. Nisso, o cão não se distinguirá especialmente de Durão Barroso. Mas, por uma vez, será o Presidente americano a andar atrás de um português para lhe limpar o cocó, em vez do contrário. Nisso, o cão distinguir-se-á bastante de Durão Barroso. Sim, tenho as maiores esperanças no bom desempenho do cachorro. Por mim, Cavaco pode começar a preparar uma comenda de pôr na coleira. Aqui para nós, sempre tem melhor destinatário do que muitas que ele tem atribuído.
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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
O absurdo não é inconstitucional
Opinião Ricardo Araújo Pereira
É possível que a maioria dos portugueses não compreenda a guerra a que temos vindo a assistir, mas nenhum ficará indiferente à sua violência. Trata-se de um desses conflitos sangrentos perante os quais até um ateu dá por si a levantar os braços para o céu e a perguntar: «Meu Deus, meu Deus, meu Deus, porquê tanto ódio? Porque será que o Sócrates e o Cavaco não conseguem entender-se?»
A contenda, que começou ainda no ano passado, agudizou-se no início de 2009, na altura do discurso de ano novo do Presidente. Quando todos pensávamos que Cavaco Silva iria aproveitar a ocasião para falar mais um pouco sobre o estatuto político-administrativo dos Açores (um tema acerca do qual é sempre interessante conhecer mais pormenores), ou ainda que alargasse o âmbito das suas intervenções a outros assuntos de carácter burocrático-regional, como o articulado do regulamento para novas propostas de hino da Madeira, ou o regime jurídico do saneamento básico no Douro Litoral, eis que o Presidente resolve debruçar-se sobre problemas que realmente preocupam os portugueses. Sem aviso, Cavaco Silva aborda questões centrais da vida do País – ainda por cima, ao que parece, dizendo a verdade. Não foi para isto que os portugueses o mandataram.
A crueza da mensagem de ano novo tem uma explicação. Sócrates ofendeu o Presidente quando não alterou uma vírgula na lei do divórcio e agravou a desfeita no caso do estatuto dos Açores. Por isso, Cavaco vinga-se agora dizendo a verdade sobre o estado do País ao povo português. É verdade que a provocação do Governo foi perversa, mas a resposta do Presidente é de uma maldade desproporcionada. A Sócrates resta a consolação de ter feito a vida negra a Cavaco: o Presidente terá muita dificuldade para encontrar assuntos nos quais possa estar em desacordo com o primeiro-ministro, uma vez que o próprio primeiro-ministro está muitas vezes em desacordo com o primeiro-ministro. Quando avisou que este ano será difícil, Cavaco desmentiu Sócrates, que previu que em 2009 as famílias portuguesas teriam maior poder de compra, mas concordou com Sócrates, que disse que este ano seria o cabo das Tormentas da crise.
O problema é que Cavaco Silva também se defende muito bem. Se Sócrates diz uma coisa e o seu inverso, o Presidente diz uma coisa e pratica o seu inverso. Também baralha o adversário. Cavaco dirigiu-se ao País para dizer que a lei que tinha acabado de aprovar continha vários aspectos absurdos, mas não indicou nenhum deles ao Tribunal Constitucional, para que este expurgasse a lei da incongruência. É possível que Cavaco tenha desconfiado que, em Portugal, o absurdo não é inconstitucional. E é possível que tenha razão.
É possível que a maioria dos portugueses não compreenda a guerra a que temos vindo a assistir, mas nenhum ficará indiferente à sua violência. Trata-se de um desses conflitos sangrentos perante os quais até um ateu dá por si a levantar os braços para o céu e a perguntar: «Meu Deus, meu Deus, meu Deus, porquê tanto ódio? Porque será que o Sócrates e o Cavaco não conseguem entender-se?»
A contenda, que começou ainda no ano passado, agudizou-se no início de 2009, na altura do discurso de ano novo do Presidente. Quando todos pensávamos que Cavaco Silva iria aproveitar a ocasião para falar mais um pouco sobre o estatuto político-administrativo dos Açores (um tema acerca do qual é sempre interessante conhecer mais pormenores), ou ainda que alargasse o âmbito das suas intervenções a outros assuntos de carácter burocrático-regional, como o articulado do regulamento para novas propostas de hino da Madeira, ou o regime jurídico do saneamento básico no Douro Litoral, eis que o Presidente resolve debruçar-se sobre problemas que realmente preocupam os portugueses. Sem aviso, Cavaco Silva aborda questões centrais da vida do País – ainda por cima, ao que parece, dizendo a verdade. Não foi para isto que os portugueses o mandataram.
A crueza da mensagem de ano novo tem uma explicação. Sócrates ofendeu o Presidente quando não alterou uma vírgula na lei do divórcio e agravou a desfeita no caso do estatuto dos Açores. Por isso, Cavaco vinga-se agora dizendo a verdade sobre o estado do País ao povo português. É verdade que a provocação do Governo foi perversa, mas a resposta do Presidente é de uma maldade desproporcionada. A Sócrates resta a consolação de ter feito a vida negra a Cavaco: o Presidente terá muita dificuldade para encontrar assuntos nos quais possa estar em desacordo com o primeiro-ministro, uma vez que o próprio primeiro-ministro está muitas vezes em desacordo com o primeiro-ministro. Quando avisou que este ano será difícil, Cavaco desmentiu Sócrates, que previu que em 2009 as famílias portuguesas teriam maior poder de compra, mas concordou com Sócrates, que disse que este ano seria o cabo das Tormentas da crise.
O problema é que Cavaco Silva também se defende muito bem. Se Sócrates diz uma coisa e o seu inverso, o Presidente diz uma coisa e pratica o seu inverso. Também baralha o adversário. Cavaco dirigiu-se ao País para dizer que a lei que tinha acabado de aprovar continha vários aspectos absurdos, mas não indicou nenhum deles ao Tribunal Constitucional, para que este expurgasse a lei da incongruência. É possível que Cavaco tenha desconfiado que, em Portugal, o absurdo não é inconstitucional. E é possível que tenha razão.
domingo, 4 de janeiro de 2009
Circunspecção de mau gosto
.
OPINIÃO
Ricardo Araújo Pereira
O mais interessante é que Margarida Moreira, a mesma que agora vê uma brincadeira de mau gosto no que mais parece ser um delito, é a mesma que viu um delito no que mais parecia ser uma brincadeira de mau gosto.
Julgo que a opinião da directora da DREN, Margarida Moreira, segundo a qual a ameaça a uma professora com uma arma de plástico foi uma brincadeira de mau gosto, é uma brincadeira de mau gosto. Mais uma vez se prova que a crítica de cinema é extremamente subjectiva. Eu também vi o filme no YouTube e não dei pela brincadeira de mau gosto. Vi dois ou três encapuzados rodearem uma professora e, enquanto um ergue os punhos e saltita junto dela, imitando um pugilista em combate, outro aponta-lhe uma arma e pergunta: «E agora, vai dar-me positiva ou não?» Na qualidade de apreciador de brincadeiras de mau gosto, fiquei bastante desapontado por não ter detectado esta antes da ajuda de Margarida Moreira.
Vejo-me então forçado a dizer, em defesa das brincadeiras de mau gosto, que, no meu entendimento, as brincadeiras de mau gosto têm duas características encantadoras: primeiro, são brincadeiras; segundo, são de mau gosto. Brincar é saudável, e o mau gosto tem sido muito subvalorizado. No entanto, aquilo que o filme captado na escola do Cerco mostra aproxima-se mais do crime do que da brincadeira. E os crimes, pensava eu, não são de bom-gosto nem de mau gosto. Para mim, estavam um pouco para além disso – o que é, aliás, uma das características encantadoras dos crimes. Se, como diz Margarida Moreira, o que se vê no vídeo se enquadra no âmbito da brincadeira de mau gosto, creio que acaba de se abrir todo um novo domínio de actividade para milhares de brincalhões que, até hoje, estavam convencidos, tal como eu, que o resultado de uma brincadeira é ligeiramente diferente do efeito que puxar de uma arma, mesmo falsa, no Bairro do Cerco, produz.
O mais interessante é que Margarida Moreira, a mesma que agora vê uma brincadeira de mau gosto no que mais parece ser um delito, é a mesma que viu um delito no que mais parecia ser uma brincadeira de mau gosto. Trata-se da mesma directora que suspendeu o professor Fernando Charrua por, numa conversa privada, ele ter feito um comentário desagradável, ou até insultuoso, sobre o primeiro-ministro. Ora, eu não me dou com ninguém que tenha apontado uma arma de plástico a um professor, mas quase toda a gente que conheço já fez comentários desagradáveis, ou até insultuosos, sobre o primeiro-ministro. Se os primeiros são os brincalhões e os segundos os delinquentes, está claro que preciso de arranjar urgentemente novos amigos.
OPINIÃORicardo Araújo Pereira
O mais interessante é que Margarida Moreira, a mesma que agora vê uma brincadeira de mau gosto no que mais parece ser um delito, é a mesma que viu um delito no que mais parecia ser uma brincadeira de mau gosto.
Julgo que a opinião da directora da DREN, Margarida Moreira, segundo a qual a ameaça a uma professora com uma arma de plástico foi uma brincadeira de mau gosto, é uma brincadeira de mau gosto. Mais uma vez se prova que a crítica de cinema é extremamente subjectiva. Eu também vi o filme no YouTube e não dei pela brincadeira de mau gosto. Vi dois ou três encapuzados rodearem uma professora e, enquanto um ergue os punhos e saltita junto dela, imitando um pugilista em combate, outro aponta-lhe uma arma e pergunta: «E agora, vai dar-me positiva ou não?» Na qualidade de apreciador de brincadeiras de mau gosto, fiquei bastante desapontado por não ter detectado esta antes da ajuda de Margarida Moreira.
Vejo-me então forçado a dizer, em defesa das brincadeiras de mau gosto, que, no meu entendimento, as brincadeiras de mau gosto têm duas características encantadoras: primeiro, são brincadeiras; segundo, são de mau gosto. Brincar é saudável, e o mau gosto tem sido muito subvalorizado. No entanto, aquilo que o filme captado na escola do Cerco mostra aproxima-se mais do crime do que da brincadeira. E os crimes, pensava eu, não são de bom-gosto nem de mau gosto. Para mim, estavam um pouco para além disso – o que é, aliás, uma das características encantadoras dos crimes. Se, como diz Margarida Moreira, o que se vê no vídeo se enquadra no âmbito da brincadeira de mau gosto, creio que acaba de se abrir todo um novo domínio de actividade para milhares de brincalhões que, até hoje, estavam convencidos, tal como eu, que o resultado de uma brincadeira é ligeiramente diferente do efeito que puxar de uma arma, mesmo falsa, no Bairro do Cerco, produz.
O mais interessante é que Margarida Moreira, a mesma que agora vê uma brincadeira de mau gosto no que mais parece ser um delito, é a mesma que viu um delito no que mais parecia ser uma brincadeira de mau gosto. Trata-se da mesma directora que suspendeu o professor Fernando Charrua por, numa conversa privada, ele ter feito um comentário desagradável, ou até insultuoso, sobre o primeiro-ministro. Ora, eu não me dou com ninguém que tenha apontado uma arma de plástico a um professor, mas quase toda a gente que conheço já fez comentários desagradáveis, ou até insultuosos, sobre o primeiro-ministro. Se os primeiros são os brincalhões e os segundos os delinquentes, está claro que preciso de arranjar urgentemente novos amigos.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
O menino guerreiro está a passar por aqui
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Opinião
Ricardo Araújo Pereira
Com a escolha contrariada de Santana Lopes, Ferreira Leite parece uma editora de livros que, por si, só publicaria Dostoiévski, mas que se vê forçada a lançar as obras completas da Corín Tellado porque o populacho (...) gosta daquilo
A escolha de Pedro Santana Lopes para candidato à Câmara Municipal de Lisboa coloca um problema ao eleitorado: qual é o PSD que os portugueses preferem? O PSD populista e demagógico de Luís Filipe Menezes, que aposta em Santana Lopes para cargos importantes, ou o PSD sério e credível de Manuela Ferreira Leite, que aposta em Santana Lopes para cargos importantes? Falta-me subtileza política para os distinguir, mas talvez prefira o primeiro, que tem aquela franqueza dos rústicos.
O PSD sério e credível parece-me um pouco dissimulado, mas talvez esse seja um requisito indispensável a quem pretende ser sério e credível em política.
O mais interessante no menino guerreiro, para além do facto de, segundo diz a canção, ser uma pessoa que também deseja colo, palavras amenas, carinho e ternura, e precisar de um abraço da própria candura, o que parece ser difícil de executar, é a circunstância de Pedro Santana Lopes ser o anti-Pacheco Pereira. Pacheco e Santana são o rigoroso inverso um do outro. As direcções do partido que respeitam Santana Lopes, apostam nele; as que não o respeitam apostam mais ainda. Foi vice-presidente do PSD no tempo em que o presidente era um homem que o definia como, e cito, «um misto de Zandinga e Gabriel Alves». Agora é apontado como candidato a presidente da maior câmara do País, quando o partido é presidido por uma pessoa que afirma publicamente ter repugnância em votar nele. Quanto a Pacheco Pereira, é igualmente ignorado pelas direcções que critica e pelas que apoia. É, aliás, curioso que Pacheco Pereira seja um comentador tão respeitado no País e tão desconsiderado no PSD. O sítio de Portugal em que as opiniões de Pacheco Pereira são menos valorizadas é o partido de que ele é militante. Há-de haver uma razão quântica que explique o motivo pelo qual Pacheco Pereira consegue ser um analista perspicaz em todo o lado, menos na Rua de São Caetano à Lapa.
Com a escolha contrariada de Santana Lopes, Ferreira Leite parece uma editora de livros que, por si, só publicaria Dostoiévski, mas que se vê forçada a lançar as obras completas da Corín Tellado porque o populacho, lamentavelmente, gosta daquilo. Ela não lê, mas se as pessoas compram, vê-se forçada a dar ao público o que ele quer. Há ainda a teoria segundo a qual Ferreira Leite oferece o cargo a Santana para reduzir o espaço de manobra à oposição interna.
O problema é que, se Santana ganhar, será ele o vencedor; se Santana perder, a derrotada será Ferreira Leite. Toda a gente já percebeu que Santana nunca perde. Ou ganha, ou passa a andar por aí. Derrotas, não há notícia de ter sofrido.
OpiniãoRicardo Araújo Pereira
Com a escolha contrariada de Santana Lopes, Ferreira Leite parece uma editora de livros que, por si, só publicaria Dostoiévski, mas que se vê forçada a lançar as obras completas da Corín Tellado porque o populacho (...) gosta daquilo
A escolha de Pedro Santana Lopes para candidato à Câmara Municipal de Lisboa coloca um problema ao eleitorado: qual é o PSD que os portugueses preferem? O PSD populista e demagógico de Luís Filipe Menezes, que aposta em Santana Lopes para cargos importantes, ou o PSD sério e credível de Manuela Ferreira Leite, que aposta em Santana Lopes para cargos importantes? Falta-me subtileza política para os distinguir, mas talvez prefira o primeiro, que tem aquela franqueza dos rústicos.
O PSD sério e credível parece-me um pouco dissimulado, mas talvez esse seja um requisito indispensável a quem pretende ser sério e credível em política.
O mais interessante no menino guerreiro, para além do facto de, segundo diz a canção, ser uma pessoa que também deseja colo, palavras amenas, carinho e ternura, e precisar de um abraço da própria candura, o que parece ser difícil de executar, é a circunstância de Pedro Santana Lopes ser o anti-Pacheco Pereira. Pacheco e Santana são o rigoroso inverso um do outro. As direcções do partido que respeitam Santana Lopes, apostam nele; as que não o respeitam apostam mais ainda. Foi vice-presidente do PSD no tempo em que o presidente era um homem que o definia como, e cito, «um misto de Zandinga e Gabriel Alves». Agora é apontado como candidato a presidente da maior câmara do País, quando o partido é presidido por uma pessoa que afirma publicamente ter repugnância em votar nele. Quanto a Pacheco Pereira, é igualmente ignorado pelas direcções que critica e pelas que apoia. É, aliás, curioso que Pacheco Pereira seja um comentador tão respeitado no País e tão desconsiderado no PSD. O sítio de Portugal em que as opiniões de Pacheco Pereira são menos valorizadas é o partido de que ele é militante. Há-de haver uma razão quântica que explique o motivo pelo qual Pacheco Pereira consegue ser um analista perspicaz em todo o lado, menos na Rua de São Caetano à Lapa.
Com a escolha contrariada de Santana Lopes, Ferreira Leite parece uma editora de livros que, por si, só publicaria Dostoiévski, mas que se vê forçada a lançar as obras completas da Corín Tellado porque o populacho, lamentavelmente, gosta daquilo. Ela não lê, mas se as pessoas compram, vê-se forçada a dar ao público o que ele quer. Há ainda a teoria segundo a qual Ferreira Leite oferece o cargo a Santana para reduzir o espaço de manobra à oposição interna.
O problema é que, se Santana ganhar, será ele o vencedor; se Santana perder, a derrotada será Ferreira Leite. Toda a gente já percebeu que Santana nunca perde. Ou ganha, ou passa a andar por aí. Derrotas, não há notícia de ter sofrido.
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domingo, 21 de dezembro de 2008
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