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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Senhoras donas, por favor! - JN

Senhoras donas, por favor! - JN








Opinião



2008-09-28

Cada país (cada língua, cada cultura) tem a sua maneira específica de se dirigir às pessoas. Mal passamos Vilar Formoso, logo toda a gente se trata por tu, que os espanhóis não são de etiquetas nem de salamaleques.

Mas nós não somos espanhóis.

Também não somos mexicanos, que se tratam por "Licenciado" Fulano. Nem alinhamos com os brasileiros, para quem toda a gente é "Doutor", seguido do nome próprio: Doutor Pedro, Doutor António, Doutor Wanderlei, etc..

Por cá, Doutor é seguido de apelido, e as mulheres, depois de passarem por aqueles brevíssimos segundos em que são tratadas por "Menina", passam de imediato - sejam casadas, solteiras, viúvas ou amigadas, sejam velhas ou novas, gordas ou magras, feias ou bonitas, ricas ou pobres - à categoria de "Senhora Dona".

Mas parece que uns estranhos ventos sopraram pelas cabeças das gerações mais novas que fizeram o "dona" ir pelos ares ou ficar no tinteiro. Quando recebo daqueles telefonemas que me querem impingir tudo o que se inventou à face da terra-- desde "produtos" bancários que me garantem vida farta, até prémios que supostamente ganhei por coisas a que nunca concorri-sou logo tratada por "Senhora Alice." Respondo sempre: " trate-me por tu, se quiser; ou só pelo meu nome, se lhe apetecer; mas nunca por Senhora Alice".

Mas o cérebro destes pobrezinhos não foi formatado para encontrar resposta a estas coisas, e exclamam logo: "ah, então não é a Senhora Alice que está ao telefone!"

Eu sei que isto não é uma coisa importante, mas que é que querem, irrita-me quando oiço este tratamento dado às mulheres.

Tal como me irrita quando vejo/oiço um jornalista tratar por você alguém com o dobro da idade dele.

É uma questão de delicadeza. De respeito. E de saber falar português. Três coisas-admito-completamente fora de moda.

Pois qual não é o meu espanto quando, aqui há dias, na televisão, oiço o Senhor Primeiro Ministro referir-se assim à mulher (também odeio a palavra "esposa"…) do Comendador Manuel Violas. "A Senhora Celeste…." (não sei se é este o nome da senhora, mas adiante).

Fico parva. Nos cursos todos que tirou, ninguém lhe ensinou que as senhoras são todas "Senhoras Donas"?

Parafraseando livremente o nosso Augusto Gil, "que quem trabalha num call-center nos faça sofrer tormentos… enfim!/ Mas o Primeiro Ministro, Senhor? Por que nos dás esta dor? Por que padecemos assim?"

sábado, 21 de março de 2009

O mau uso do Português

Opinião





JN 2009-02-14
Pronto, lá vou eu bater outra vez no ceguinho do costume, mas que é que querem, estas questões do mau uso da nossa língua, ou de um certo desamor com que ela é tratada - a sério que me tiram do sério (como se diria certamente numa qualquer telenovela brasileira onde, regra geral, se fala bem melhor Português do que nas nossas…)

Eu sei que para a maior parte das pessoas isto não tem importância rigorosamente nenhuma, não nos vai tirar da crise, não vai resolver o problema do desemprego, nem sequer nos protege do buraco do ozono.

Mas a língua portuguesa é património nacional - e se andamos sempre todos tão entusiasmados em votações para eleger o melhor monumento, ou a maior maravilha do Mundo, por que não nos lembramos de defender com igual vigor a utilização correcta da língua que, afinal, é o que a todos nos une?

Basta ler os jornais e revistas, basta ouvir o que se diz nas televisões, basta ler legendas em filmes ou séries, basta ouvir o discurso de pessoas com responsabilidades na matéria para percebermos a que ponto vai o descalabro.

Ainda há dias o jornalista Joaquim Vieira, provedor dos leitores do "Público", enchia uma página inteira só de reparos a mau Português usado naquele jornal. É caso para dizer, nunca as mãos lhe doam…

Foi exactamente o que eu pensei há dias quando, sentada na plateia do Coliseu, no intervalo da "Giselle", interpretada pelo Ballet Nacional da Moldávia, comecei a folhear o programa do espectáculo.

Papel couché, brilhante, oito folhas com meia dúzia de fotografias e pouco texto.

Quem quis o programa teve de dar por ele 4 euros, que a vida está difícil para todos.

Claro que o programa de um espectáculo não tem as mesmas responsabilidades de um jornal, mas, caramba!, tínhamos pago 4 euros por ele (mais do que por um programa habitual dos concertos da Gulbenkian, e esses sempre com muita e cuidada informação), o mínimo que devíamos exigir era um texto em Português escorreito.

Infelizmente, não encontrei em lado algum o nome do seu autor, e tive pena.

Logo a começar, Adolphe Adam é-nos apresentado como "um proliferado compositor", o que não augura nada de bom..

Depois, no libreto, ficamos a saber que o príncipe se transforma em camponês "sobre o pseudónimo de Loys".

Uma das personagens - dizem-nos também - é descoberta "no linear da meia-noite".

A qual, no fim de tudo, acaba por sucumbir de "exaustam".

Dir-me-ão: ah, afinal há só quatro erros…

Respondo: não devia haver nenhum.

Dir-me-ão outra vez: ah, se calhar o texto estava escrito em Moldavo…

Respondo: se calhar estava mas, uma vez que tinha de ser traduzido, a tradução devia ter sido feita com rigor.

E, já agora, com um revisor competente.