Ana Benavente - Público, 20080420
Um balanço de governo só é completo quando considera o que fez (bem ou mal) e o que não fez
1.Obrigada, Fausto Bordalo, pelo título que retiro da tua canção. A primeira nota resume-se em poucas palavras: são cada vez em maior número os trabalhadores que estão no limiar da pobreza e que procuram o Rendimento Social de Inserção. Não se trata de desempregados mas sim de trabalhadores. É uma realidade grave. Não é obrigação de um governo socialista criar condições para que cada trabalhador tenha um salário digno que lhe permita uma vida digna? Já não é possível viver do trabalho? Como se pode aceitar que os baixos salários e a precarização do trabalho aumente a pobreza? O meu ressentido protesto.
2.Não houve referendo sobre o Tratado de Lisboa. Depois de alguns "não" à anterior Constituição (em França e na Holanda, a Espanha votou sim), parou esse processo e recomeçou um outro.
Neste acordo, os governos decidiram que era melhor não consultar o povo, não fosse o povo pôr em causa a decisão dos dirigentes. Que bela Europa, que dá, ao mesmo tempo, plena liberdade aos Estados Unidos para ferir a democracia voando para Guantánamo...
Não pensaram sempre os socialistas que a Europa se construía com o povo e não nas suas costas? Um governo socialista que prometeu um referendo e que tem medo da palavra do povo não merece o meu respeito democrático mas sim o meu ressentido protesto.
3.Todos os dias a democracia perde um pouco da sua luz, da sua cor, do seu brilho, da participação dos cidadãos. Tal como havia feito Ferreira do Amaral que, depois de negociar com a Lusoponte, saiu do governo para a dirigir, foi depois Pina Moura que deixou a política para altos saltos económicos; agora é Jorge Coelho (a quem desejo as maiores felicidades pessoais) que, ex-ministro das Obras Públicas, passa a administrador executivo da Mota-Engil. Os comentários são unânimes. "São todos iguais." Servem-se da política, não têm qualquer sentido de serviço público. Que mal isto faz à democracia!
Eu não gostaria de ver os políticos em situações profissionais difíceis, claro, mas tanta ascensão e, há que dizê-lo, tanta promiscuidade entre altos cargos privados da economia e a política ferem a legitimidade democrática. O povo eleitor não tem lugar nesta mercantilização da política. E quando um trabalhador modesto se dirige ao Centro Nacional de Pensões, com anos e anos de descontos e lhe é dito "olhe que o senhor não pode continuar, depois, a trabalhar na área em que se reforma"..., esse cidadão sente que há vários países. Só posso protestar, ressentidamente.
4.O país cansa. Quem perde a carteira e os documentos faz a via sacra dos serviços oficiais. Falta sempre um imprenso ou uma senha. A Loja do Cidadão, ideia excelente, rebenta pelas costuras. Os serviços centrais do BI, outrora um serviço modelo, têm quase todos os guichets fechados porque os funcionários que saem não são substituídos. As pessoas, algumas vindas de longe, suspiram e desejam, a quem as acaba por atender, "muitas felicidades para todos os seus". A um africano de um país de expressão oficial portuguesa é-lhe dito que a certidão demora muito porque vem do "Ultramar". A conversa foi longa mas não soube de que país (dos PALOP) vem, mas vem do "Ultramar".
5.Nas escolas, em que a burocracia ganhou, em tempo e em preocupação, ao trabalho de ensinar e de aprender, vive-se uma estranha esquizofrenia. Há dezenas de escolas que afirmam não terem condições para avaliar os professores contratados e a senhora ministra insiste que, quem não for avaliado, não será colocado no próximo ano.
Um ministério pode impor normas pela chantagem? Ameaçar os professores contratados com o desemprego no ano que vem? Que Governo é este? A maioria absoluta não lhe permite esquecer-se de que governa para e pelas pessoas. Que Partido Socialista pode aceitar tais práticas?
Quanto aos alunos com necessidades educativas especiais, dizem-me que vão ser integrados em turmas numerosas sem qualquer apoio assegurado. Será possível? Em 1975, foi uma das minhas prioridades; evitar que andassem meninos anos e anos sem aprender, sabendo os pais que eles eram "deficientes" mas sem dinheiro para procurar escolas particulares (que não havia fora das grandes cidades, aliás). Assim nasceram as CERCI. Não posso acreditar que se volte trinta anos atrás. O meu ressentido protesto.
6.Há 18 anos adoptei, legalmente, uma criança de quatro anos da Misericórdia de Lisboa (acontecimento muito feliz). Quando veio, estranhei não ter direito nem sequer a uma semana de licença (nem pai, nem mãe) para o integrar na nossa casa, na nossa família, numa nova vida. Achei mal.
Leio agora que os pais adoptivos terão que pagar as custas judiciais da adopção, daqui para a frente. (Acham que se puderem provar que não têm dinheiro para as custas, têm dinheiro para criar mais um filho?)
O ridículo descredibiliza; e às vezes até mata...
O ridículo descredibiliza; e às vezes até mata...
7.No balanço dos três anos de governo, o Sr. Porta-voz afirmou, sorridente (homem que sorri pouco), que havia tanta coisa bem feita que não valia a pena perder tempo com o que correu mal ou menos bem. Foi pena. Governar não é ir a um espectáculo para receber palmas. Um balanço de governo só é completo quando considera o que fez (bem ou mal) e o que não fez. Assim, parece-me mais uma festa de aniversário (com poucos convidados) do que a prestação de contas ao país. A menos que o Governo se esteja a esquecer do país e que tenhamos todos que gritar muito mais alto para que isso não aconteça.
O momento é bom. Aproximam-se os 40 anos de Maio de 68 e o 25 de Abril. Ouviu-se o povo, abriram-se portas, denunciaram-se injustiças, dissemos que não queríamos uma vida só feita de trabalho, de transportes e de algumas horas de sono (boulot, metro, dodo). A que modos de vida chegámos hoje? Os mais novos e os mais velhos institucionalizados (a tempo inteiro) e os do meio a trabalhar para criar mais desigualdades. Viva Abril e Viva Maio. Nos doze meses de cada ano.
Socióloga, militante do PS
