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sexta-feira, 9 de julho de 2010

Madrid nos mata

Miguel Sousa Tavares - Expresso.pt

0:00 Quinta feira, 8 de Julho de 2010

No espaço de dois dias tivemos de enfrentar dois desafios espanhóis do tipo 'mata-mata'. No futebol, perdemos, mas parece que não fomos humilhados - o que foi motivo de alívio pátrio. Na PT, ganhámos, mas consta que o jogo vai para prolongamento e, de uma forma ou de outra, a derrota está garantida. No futebol, a nossa golden share, conhecida por CR7, nem chegou a ir propriamente a jogo; na PT, sim, rebentámos patrioticamente com a bomba da golden share na cara da Telefónica - porque, afirmou o primeiro-ministro, estava em causa "o interesse estratégico de Portugal".

(...)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Junho 2010: para mais tarde recordar

Miguel Sousa Tavares - Expresso.pt


Miguel Sousa Tavares www.expresso.pt
0:00 Quinta-feira, 10 de Junho de 2010

1 Apresento-vos o SUCH: uma empresa pública juridicamente disfarçada de associação de utilidade pública, cujo fim é "promover a redução de custos e a qualidade e eficiência da prestação de serviço por parte do Serviço Nacional de Saúde". Na sua última gestão, o SUCH conseguiu a proeza de perder 5 milhões de euros, com a mesma naturalidade com que empresas como a EPUL (que constrói casas por conta da CML, sem ter de pagar os terrenos) consegue perder dinheiro. Mas o prejuízo e o endividamento bancário não são nada que preocupe os administradores do SUCH - os quais, segundo um relatório preliminar do Tribunal de Contas, se aumentaram 50% no vencimento no triénio 2006/8, atribuíram-se 25 viaturas de "uso não exclusivamente profissional" e despesas de representação referentes a 14 meses por ano, além de prémios de 130.000 euros a três directores por terem conseguido cumprir a que era a sua função: cobrar créditos. Pormenor irrelevante é que o TC conclua ainda que o SUCH revele "falta de conhecimento das idiossincrasias do sector público da saúde".

Quantos SUCH haverá por essa Administração Pública e Local fora? Quantos biliões não se poupariam se o primeiro-ministro, pura e simplesmente, decretasse que cada Ministério teria de reduzir a sua despesa corrente em 10% - e eles que se dessem ao trabalho de puxar pela imaginação e passar a pente fino todos os gastos inúteis ou injustificados da teia de institutos e empresas públicas, fundações e associações, que tutelam? Pois é: mas é tão mais fácil e imediato subir impostos a quem trabalha e produz riqueza para sustentar um exército de milhares de afilhados e protegidos!

2 Vê-se que o Governo está em decomposição quando um homem competente e empenhado como Teixeira dos Santos já não sabe o que há-de prever, o que há-de fazer, o que há-de dizer. Ele espera apenas que "este ano" não seja preciso voltar a aumentar os impostos. Ele sabe que o aumento retroactivo de impostos é proibido pela Constituição, mas acha que essa não é uma "proibição absoluta", que não deva ceder face ao "bem comum" e à situação de emergência financeira em que estamos. Ou seja: segundo o ministro, parece que a Constituição tem princípios absolutos e princípios relativos e que cabe a quem governa determinar, em cada momento, quais são uns e quais são outros. Será que já vivemos em estado de sítio, quando a Constituição, ou parte ela, pode ser suspensa?

Pois é, senhor ministro, suspenda a Constituição, que a gente paga, que remédio! Mas, se ao menos, não houvesse o SUCH! Se não houvesse a EPUL! Se não houvesse umas centenas de empresas municipais a duplicar as funções, os lugares e as despesas das câmaras! Se não houvesse o metro do Porto (praticamente todo feito à superfície), que, em meia dúzia de anos acumulou quase 2000 milhões de prejuízo, onde as receitas não chegam sequer para pagar metade das despesas com a dívida e cada bilhete que um utente paga custa aos contribuintes 3,2 euros mais! Ah, senhor ministro, o Estado português é como um chefe de família que passa o dia na taberna e no casino e depois rouba o ordenado à mulher e aos filhos para se sustentar! Por favor, faça, diga-nos qualquer coisa que nos possa consolar patrioticamente dos sucessivos assaltos fiscais de que somos alvo!

3 A Espanha suspendeu a construção de um dos troços da sua linha de TGV Madrid-Caia. É apenas um troço, nada mais, mas a tão invocada ligação "estratégica" de Portugal à Europa em alta-velocidade precisa de todos os troços. Parece que a Espanha manterá o seu compromisso de completar a sua parte no prazo previsto, até 2013. Parece que continua a valer um telefonema entre o nosso ministro das Obras Públicas e o ministro do Fomento deles. Abençoado telefonema: neste momento, é o melhor instrumento "jurídico" de que dispomos para não nos vermos amanhã com a gloriosa tarefa de rentabilizar um TGV entre Caia e o Poceirão. Francamente, seria de mais.

4 Os espanhóis quiseram também comprar os 50% da Vivo que a PT detém no Brasil: ofereceram 5,3 mil milhões, o que foi considerado pela PT, pelos seus principais accionistas, por José Sócrates, o ministro e o secretário de Estado como uma ofensiva hostil e atentatória do interesse nacional. Sócrates não se ensaiou mesmo nada para declarar que faria uso da golden share do Estado na PT para impedir a alternativa previsível - que seria uma OPA da Telefónica sobre a própria PT. Unidos como unha e carne, Governo e accionistas principais da PT garantiram que não cederiam, que a Vivo é estratégica para a PT e a PT é estratégica para Portugal. Cinco dias depois, a oferta subiu para 6,5 milhões e as razões "estratégicas" para não vender começaram a abrir caminho à estratégia de "tudo tem um preço". Vai haver violas metidas ao saco e um fado que virará flamenco, mas eu, francamente, não me apoquento nada: a minha dose de patriotismo está-se a esgotar com o assalto fiscal e o Mundial de futebol. De estratégico, para mim, é só isto: a PT é a maior e a pior empresa de Portugal. Funciona em regime de monopólio de facto e presta um serviço público que é caro e mau. Se alguém a quiser, e não apenas à sua enteada brasileira, eu até agradeço: pior não ficamos, de certeza.

5 Compreendo que uma escola com cinco ou dez alunos não é viável financeiramente nem aconselhável pedagogicamente. Mas fechar todas as escolas (e são todas no Interior) com menos de 20 alunos já é diferente e dificilmente explicável por razões que não apenas financeiras e de curto prazo. A médio e longo prazo, este é o caminho certeiro para acabar de matar o Interior: atrás das crianças, vão os pais; atrás dos pais, vão os empregos e a economia, o comércio e a vida activa; restam os avós, o vazio, as casas fechadas, as aldeias mortas. Se alguém pensasse Portugal a longo prazo ou se, ao menos, estudasse o seu passado recente, veria que este é o maior erro que cometemos. Poupamos hoje, pagamos amanhã. E caro.

6 O que mais me despertou a atenção na maravilhosa aventura programada da célebre professora stripper de Mirandela, foi descobrir duas coisas: uma, que ela, afinal, não é professora, mas sim "monitora de tempos livres"; a outra, que tem um ordenado por inteiro mas um horário de apenas seis horas semanais, as quais pode acumular todas num dia, ficando com o resto da semana livre. Será que se eu me despir, também me arranjam um emprego destes?

7 Pela segunda vez, o Governo vai tentar fazer passar a lei que tornará obrigatória a colocação de um chip em todos carros e que permitirá ao Big Brother saber, em cada instante, onde estamos, o que fazemos e a que velocidade circulamos. O objectivo evidente é poder sacar uma fortuna em multas sem levantar o traseiro da cadeira. Mas eu desconfio que não é só isso: desconfio que, tal como sucedeu com os coletes, algures, aí entre os 'especialistas', já alguém investiu uns milhares na compra dos chips e só espera, para os transformar em milhões, que a lei seja aprovada.

8 Alguma direita (não necessariamente recomendável) ficou zangada com Cavaco Silva por ele não ter usado o veto político à lei dos casamentos homossexuais. Eu percebo-os e não os percebo. Percebo-os, porque se um Presidente, que não é eleito com um programa de governo, porque não vai governar, também prescinde de ter um programa ideológico e de valores, então não está lá para fazer nada, excepto manter-se em funções. Mas não os percebo, porque esse é exactamente o caso de Cavaco Silva, como já todos tinham obrigação de saber. Cavaco não gosta de riscos, de atitudes morais, de confrontos ideológicos: gosta do terreno aplanado para seu uso pessoal. Em cada escolha, em cada dilema, ele nunca corta a direito: arranja sempre maneira de se encostar a uns sem se desencostar dos outros.

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Junho de 2010

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Da caixa de comentários

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"A Queda"


Transcrição do artigo de opinião de Miguel Sousa Tavares in "Expresso" de 08.08.2009:

"O problema de Isaltino Morais é que a cara dele condiz com o que o tribunal o acusa de ter feito. Não apenas as provas e as suas fracas justificações: a cara, também. Ensinou-me a minha mãe, há muitos anos, que se deve olhar bem para a cara das pessoas, antes de ajuizar sobre elas. Confesso que é um conselho que nem sempre me lembro de seguir e, quando me esqueço de o fazer, normalmente acabo por me arrepender. O tribunal acusou e condenou Isaltino por coisas nada brandas, no exercício de funções públicas: fuga ao fisco, branqueamento de capitais, abuso de poder e corrupção passiva. E eu olho para a cara dele, penso na inexplicável fortuna do sobrinho da Suíça, lembro-me das declarações da ex-secretária e recordo a 'arrogância', de que fala a sentença, com que ele respondeu às acusações, e acho-o bem capaz disso.

Pois, é verdade, permanece a presunção de inocência. Enquanto todos os recursos que vão ser sucessivamente interpostos não estiverem decididos, enquanto esta sentença não transitar em julgado (o que irá demorar anos), Isaltino Morais tem o direito a ser presumido inocente. Mas as coisas mudaram muito com a sentença: um tribunal já o julgou culpado e agora é ele que tem de provar a sua inocência, e não o tribunal que tem de provar a sua culpabilidade. Tem de provar que o tribunal se enganou e que se enganou grosseiramente, julgando-o culpado de quatro crimes dos quais não terá cometido nenhum.

E isto é apenas o lado jurídico da questão. Porque, politicamente, Isaltino está morto - ou melhor, devia estar, se tivesse vergonha na cara e os seus eleitores também. Não apenas pela sentença condenatória, mas por uma coisa bem mais simples: por ter declarado em julgamento que escondera dinheiro do fisco "porque toda a gente o faz". Que ele se queira recandidatar a novo mandato, como se nada de grave tivesse entretanto sucedido, é um direito que lhe assiste e que, em situações idênticas, uns aproveitam e outros não - conforme os valores que defendem, o respeito que têm pelos eleitores e pelas regras do jogo. Mas quando alguém que exerce funções públicas há vinte anos, que já foi ministro e que está à frente de uma das principais autarquias do país, vem fazer o elogio público da fraude fiscal, é intolerável que se queira manter em funções. Até porque a experiência ensina que quem não respeita o dinheiro do Estado na hora de o pagar, também o não respeita na hora de o gastar: quem foge a pagar os impostos que deve não pode gerir o dinheiro dos impostos dos que os pagam. Menos do que isto é a pouca vergonha absoluta.

E não me venham com a pretensa 'legitimidade política' ou 'democrática' versus 'legitimidade judicial'. Sempre fui contra as tentativas (que as houve e às vezes regressam), de caminharmos para uma 'República de Juízes', mas o que aqui está em causa é exactamente o oposto: pretender que o voto popular pode usurpar, por si, a função judicial. Se isto fosse tolerável, no limite acabaríamos a ditar sentenças criminais por votação popular. Não há nenhuma votação ou eleição que possa eximir os Valentins, as Fátimas, os Avelinos e os Isaltinos da prestação de contas à Justiça, como qualquer outro cidadão. Mais do que o voto, a democracia é o Estado de Direito, onde a lei é igual para todos e todos respondem perante ela e perante tribunais independentes da política e do poder político.

E não me venham também com a grande e incontroversa obra autárquica de Isaltino Morais em Oeiras, porque não são estes factos que foram julgados em tribunal. O que foi a julgamento é saber se os meios, todos os meios, justificam os fins. E a resposta só pode ser não, a menos que queiramos reeditar aqui o Brasil do tempo do prefeito Ademar de Barros e do seu imortal slogan 'roubo, mas faço!'. Com licença da actriz Eunice Muñoz e do general Otelo Saraiva de Carvalho, o que está em causa é mais importante do que o seu bem-estar em Oeiras. Isto é tão claro, que até custa a perceber que haja quem o não veja."