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quinta-feira, 3 de maio de 2012

Sem Pingo de juízo

Sem Pingo de juízo
 

 
É este país, cercado de problemas, que perde um dia inteiro a discutir a promoção do Pingo Doce. Até na Assembleia da República...
O país tem 15% (?) de desempregados. Está sob tutela externa. Não tem dinheiro para mandar cantar um cego. Está a fazer cortes brutais em áreas sociais, como Educação e Saúde. Está a ver se sai da recessão. É este país, cercado de problemas, que perde um dia inteiro a discutir a promoção do Pingo Doce. Até na Assembleia da República...

Faz sentido? A resposta desdobra-se em dois planos: o do consumidor e o da classe política. Primeiro o consumidor. Faz sentido criticar quem foi às compras? Não. O consumidor é racional e uma promoção de 50% (que devia ter sido preparada com mais cuidado, é verdade) faz diferença. Não perceber isso é ignorância.

Agora a classe política. A Jerónimo Martins violou a lei? Só se tiver feito “dumping”. E enquanto as autoridades (Autoridade da Concorrência, ASAE, tribunais) não se pronunciarem sobre isso, o assunto aconselha prudência. Foi o que fez a classe política? Não. Primeiro alguns deputados meteram os pés pelas mãos, tentando crucificar a Jerónimo Martins (ai os recalcamentos…!). Depois acabaram a afirmar que houve dumping, “substituindo-se” às autoridades. Pergunta: e se as autoridades concluírem que não houve dumping? Voilà: não acontece nada aos deputados. Têm imunidade…

Mas voltemos ao essencial: como é que uma promoção se transformou no principal assunto de discussão política? Não há assuntos mais importantes para tratar? Claro que há. Mas a matéria prestava-se ao folclore: dos sindicatos e da classe política, sobretudo da que está mais à Esquerda. A “jornada de luta” do 1º de Maio foi uma desilusão tão grande (obnubilada por uma simples campanha comercial), que era preciso esconder o fracasso a todo o custo.


camilolourenco@gmail.com

sexta-feira, 30 de março de 2012

PS, PSD e CDS estão todos manietados



 
 
A situação no PS é curiosa: aumenta a contestação interna à implementação do memorando assinado com a troika.
A situação no PS é curiosa: aumenta a contestação interna à implementação do memorando assinado com a troika. O último episódio desta contestação (o desafio à ordem de abstenção na votação da nova lei laboral, expressa no "post" do porta-voz João Assunção Ribeiro, no Facebook, sugerindo que gostaria de votar contra a medida), é a prova de que as tensões estão ao rubro... e podem fazer estragos. Sendo que o estrago maior pode ser a percepção, no exterior, de que Portugal perdeu o amplo consenso político em torno do programa de ajustamento.


Compreende-se a frustração do porta-voz do PS: o partido está manietado na sua afirmação política por um acordo que foi obrigado a assinar pela troika, sob pena de Portugal não conseguir a ajuda de que precisava (ninguém, no BCE, FMI e Comissão Europeia, queria uma repetição da Grécia...). Mas é só o PS? Boa parte do receituário da troika não "joga" com o ideário tradicional social-democrata. O que leva a outro raciocínio: se o PS tivesse ganho as eleições, poderia desviar-se um milímetro do acordo? Claro que não! O que conduz a uma conclusão: PS, PSD e até o CDS estão todos manietados por aquilo que assinaram. A diferença é que PSD e CDS foram parar ao Governo e, por isso, não podem deixar de executar o que nos foi imposto. Caso contrário... a "massa" não entra. Como não entraria se o PS tivesse ganho as eleições e não cumprisse o acordado. O que sugere uma pergunta final: o que faria João Assunção Ribeiro e os próceres de Sócrates no grupo parlamentar se um primeiro-ministro PS estivesse a fazer o que PSD e CDS estão a fazer? Provavelmente amouxavam. Digo eu...
 

segunda-feira, 26 de março de 2012

Uma fotografia ou a imagem de um país

Uma fotografia ou a imagem de um país

 
Qual a imagem-chave da greve geral de 5ª feira? A agressão, desproporcionada, a jornalistas. É justo? Não.
Qual a imagem-chave da greve geral de 5ª feira? A agressão, desproporcionada, a jornalistas. É justo? Não. A intervenção policial era necessária para evitar que um bando de energúmenos transformasse uma manifestação numa batalha campal. Mas a agressão aos jornalistas não o era.

De quem é a responsabilidade? Não sei. Mas esperemos que a culpa não morra solteira: quem agrediu daquela forma merece ser sancionado; quem, no comando daquelas forças, não soube prever o que se ia passar merece pelo menos uma admoestação. Porque estava na cara que alguém ia fazer alguma coisa (à falta de melhores argumentos) para a jornada de luta terminar mal. Até havia antecedentes: os tumultos de 2011 às portas do Parlamento. Que, curiosamente, estiveram para se repetir...

Não sei se o ministro Miguel Macedo esteve à altura dos acontecimentos, antecipando, com a direcção da Polícia, o que se poderia passar. Mas a Polícia não esteve. E conseguiu que Portugal passasse para o exterior a imagem de uma… mini-Grécia: até parte da Imprensa portuguesa, num manifesto exagero (um eufemismo!), alinhou nessa comparação.

Certo, certo é que uma única fotografia, que correu mundo, deitou fora uma excelente oportunidade para passar para o exterior o que era mais importante: o espectacular fracasso da greve geral. Que confirma que Portugal é um país de paz social. Exactamente o oposto da Grécia. Razão pela qual quem nos empresta dinheiro tem razões para se sentir tranquilo. E isso era um trunfo importante para juntar à gestão macroeconómica que começa a dar os primeiros frutos, bem expressos na baixa dos “juros” da nossa dívida pública. Uma pena.


camilolourenco@gmail.com