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sábado, 16 de maio de 2009

IOMAF - Serviços Turísticos Lda

"Fica tudo praticamente pronto até Setembro deste ano", garantiu ao DN o presidente da Câmara de Oeiras, Isaltino Morais, referindo-se aos projectos em curso para requalificação e legalização das dez áreas urbanas de génese ilegal (AUGI) do seu concelho, que envolvem investimentos na ordem dos dois milhões de euros e cerca de quatro mil pessoas. "Ainda vai a tempo das eleições", gracejou, esboçando um largo sorriso.


Durante a manhã de ontem, o autarca parecia um autêntico guia turístico, a bordo de um autocarro cheio de elementos da câmara e jornalistas. Explicava que "à esquerda fica a parte já requalificada do Bairro da Laje e à direita ainda é preciso demolir umas casas para criar arruamentos e outras infra-estruturas".

Questionado pelo DN sobre a situação em que os moradores dessas casas vão ficar, Isaltino Morais esclareceu: "Vamos construir habitações mais acima para realojar as pessoas. É que aqueles espaços têm de ficar mesmo livres para essas infra-estruturas. Isto está a correr de forma pacífica."

Fez uma breve visita pela tal parte esquerda do bairro e, de facto, o resultado condiz com a descrição apresentada pelo autarca: "Isto ficou muito bonito, com uma zona de lazer, que
parece uma sala de estar, com mesas e cadeiras por baixo de uma ponte, à beira de uma ribeira que até já tem enguias e patos. E há dez anos só havia aqui água suja."

Mais adiante, vai indicando "a Casa das Letras, inaugurada o ano passado, onde antes havia uma pedreira. Fez-se também um parque com jardim, anfiteatro e campo de futebol".
Quando passou junto da escola local, as crianças correram para o gradeamento e fizeram uma autêntica festa à comitiva com o presidente da câmara. Isaltino gostou, conversou com a miudagem, agradeceu e despediu-se.

Nos bairros que visitou, o autarca parecia já estar em campanha autárquica, cumprimentando efusivamente os munícipes.
Já no Casal da Choca, referiu que "é a maior AUGI do concelho, junto do Bairro dos Navegadores, que é o mais problemático. Só tem uma estrada e estão a ser construídos mais acessos que circundam o bairro". Mas frisou que o Ministério da Administração Interna refere que "Oeiras é o concelho mais seguro da área metropolitana de Lisboa".

Também "vai nascer aqui um supermercado e a câmara vai criar um lar para a terceira idade", anunciou. Quando viu um monte de ferro-velho no meio de um terreno, o autarca salientou que "o concelho de Oeiras tinha 20 sucateiros e agora só resta um".

As obras de requalificação envolvem dez AUGI, incluindo o Bairro da Laje, Casal da Choca, Leceia e Pedreira Italiana, numa área de 358 hectares com 881 construções. Os trabalhos implicam a construção de arruamentos, saneamento básico e outras infra-estruturas socioculturais e recreativas, desportivas e espaços verdes.

"Outras câmaras dão apoios para as associações de moradores requalificarem as AUGI, mas depois aquilo nunca mais se resolve como deve ser. Por isso, preferimos ser nós próprios a fazê-lo", explicou, enquanto conduzia as visitas a Leião, Leceia e Pedreira Italiana.

Já no final desta excursão, o autarca confessou que "pouca gente acreditava que seria possível transformar estas áreas".

domingo, 11 de janeiro de 2009

A espada de Dâmocles

Para que as coisas corram bem, do ponto de vista de Isaltino Morais, é necessário que todos os astros estejam de feição e não haja imponderáveis. É assim como jogar à sueca com uma mão de 4 ases em que os pontos necessários para ganhar sejam irrelevantes, dado o duque de trunfo ser suficiente. Quando as coisas assim correm de feição, o sorriso baila nos lábios e um assobio de alegria ecoa no horizonte.

Mas, certezas foi chão que deu uvas e as coisas podem transformar-se num pesadelo. Pensemos nos imponderáveis:

  1. A data das eleições autárquicas, embora seja marcada pelo governo, será entre finais de Setembro e meados de Outubro. Aponta o bem senso para que as mesmas se realizem em Outubro (embora em matéria de bom senso se verifique uma escassez imensa).
  2. O processo de Isaltino Morais transitou para o Tribunal de Oeiras para marcação de julgamento, e nada aponta que o mesmo seja marcado para data posterior às eleições.
  3. A nível nacional subsiste um diferendo que irá fazer correr muita tinta. O PS recusa em absoluto que as eleições autárquicas sejam marcadas em simultâneo com as legislativas, preferindo que as mesmas se realizem com as europeias. O PR a quem compete marcar as mesmas iniciou outro tabu. Aqui para nós, Portugal é um país de interditos e a transparência e a clareza não é apanágio dos políticos. São jogos palacianos de interesses múltiplos e variados.

Mas, são imponderáveis de peso para um autarca que só pode ter mais um mandato, e que necessita de uma estratégia eleitoral para minimizar danos colaterais.

Ouro sobre azul seria a marcação do julgamento para depois das eleições. Permitiria que este fizesse uma campanha eleitoral sem que a espada de Dâmocles ameace cair a qualquer momento sobre a sua cabeça. Jogaria na ambivalência, na vitimização, mostraria a obra que tinha feito e que desejava fazer. Mais, o ajuste directo para obras, numa autarquia que aparenta não ter problemas de dinheiro, é uma benesse que não se desperdiça. Ser-lhe-ia também simpático o julgamento acabar antes das eleições e neste ser considerado inocente. Outra hipótese poderia matar o artista.

Num julgamento a decorrer em pleno período eleitoral, Isaltino Morais fica limitado e condicionado não se pode movimentar tão livremente e teria de lidar com uma cobertura mediática exaustiva. Mas, esta não lhe seria benéfica porque teria de se conter nas explicações/manipulações dos factos. O Tribunal só aceita provas e não declarações de intenções sonantes nos jornais. Como alguém comentou no OL seriam as eleições à porta do Tribunal.

Ora, esta exposição dos eleitores a uma informação tão relevante pode criar dissonâncias, com as atitudes anteriores do eleitorado, especialmente se for contraditória ou, melhor dizendo, se se verificar uma tensão entre o que sempre foi dito e o que a realidade demonstra. Este passeio triunfal por Oeiras pode ser espinhoso.

Mas nestes imponderáveis, se legislativas e autárquicas forem em simultâneo, hipótese não muito desfasada da realidade, a coisa ainda se complica mais. Em municípios onde não há dissidências nem dissidentes, tudo corre a contento das partes, agora, em municípios como Oeiras seria delicioso de se ver. Imaginemos quem apoiariam os militantes IOMAF/PSD... de manhã PSD, à tarde IOMAF e à noite PS!

O problema de fundo é que os políticos na nossa terra, tendo em conta a sua mediocridade, recorrem ao marketing, para se venderem como se fossem sabonetes. O vazio e a superficialidade do seu discurso é colmatado com o soundbyte publicitário. Empolgam as massas, pensam eles, com canetas, sacos de plásticos, bonés, chapéus de chuva, aventais e afins, para além de comícios com o cantor da moda a finalizar o lanche ajantarado de febras assadas e vinho tinto. Até colocam à disposição camionetas gratuitas para que a excursão permita a presença daqueles que os apoiam tão fervorosa e cegamente.

Mas, para que isto tudo seja viável é pressuposto prévio que não haja nos eleitores uma alteração do sentido de responsabilidade. Isto é, o eleitor sentir-se-ia comprometido e encararia a votação como uma obrigação que emana da autoridade do líder do partido a que está filiado. Porém, é preciso que o líder e candidato sejam reconhecidos e que a imagem que transmitem seja de tal modo boa ou virtuosa que favoreça a identificação e a obediência a essa pedido/obrigação. Ora, para a manutenção da intenção de voto é necessário que o eleitor tenha "recebido estímulos muito positivos" do partido de pertença e que face a ele ainda subsistam expectativas encantatórias face ao futuro. Mais, que concorde e aceite a partidocracia vigente.

Agora se o eleitor não está em "sintonia" por razões várias (desemprego, índices de corrupção, sensação de impunidade dos políticos, cisões partidárias, entre alguns exemplos) é muito pouco receptivo a essas mensagens e muito mais permeável a uma possível mudança. Ora, Portugal está em recessão e esta veio para ficar. Nestas circunstâncias, nem sempre o compromisso é procurado e a atitude de mudança impõe-se como uma reacção a uma situação que se está a viver e é considerada insuportável. Como poderão os políticos produzir uma motivação persuasiva que leve os eleitores a votarem neles, quando no passado recente, ainda claro na memória de todos, desbarataram a credibilidade e confiança com atitudes opostas ao discurso?

Isaltino Morais, como os demais políticos, não consegue entender que já não chega o soundbyte para justificar uma apregoada competência, isenção, honestidade e vontade de trabalhar para o bem comum. Daí também não perceber as razões do aumento da abstenção a cada eleição.

Ainda não percebeu que a espada de Dâmocles ameaça cair sobre a sua cabeça a qualquer momento. Ele só consegue ver apenas as benesses não distinguindo as responsabilidades e os riscos do cargo para o qual o cidadão exige que seja exercido, cada vez, mais com responsabilidade e rigor.

Estamos muito fartos de pessoas que se metem na política com uma mão à frente e outra atrás e conseguem amealhar pecúlios consideráveis. O BPN é o exemplo paradigmático.

Avizinham-se tempos interessantes mas conturbados. Há que mudar de paradigmas.