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domingo, 30 de maio de 2010

Prendas e subornos

Prendas e subornos - F. Moita Flores - Correio da Manhã


Impressão digital

Prendas e subornos
Enquanto autarca aceitarei prendas que possam ser encaminhadas para o Banco Alimentar contra a Fome.

21 Março 2010
Por: Francisco Moita Flores, Professor Universitário

domingo, 21 de fevereiro de 2010

A Nova Picareta


CM 21 Fevereiro 2010 - 00h30

Impressão Digital

Rangel começou mal a sua disputa para liderar o PSD, começou por trair quem lhe deu a mão: Aguiar-Branco.


Rangel começou mal a sua disputa para liderar o PSD. Começou por trair quem lhe deu a mão para chegar onde chegou, apunhalando um homem impoluto e responsável que tem sido o esteio da sensatez nesta direcção à deriva do PSD: Aguiar Branco. Depois de insultar Portugal no Parlamento Europeu, julgávamos nós por causa de Sócrates, viemos a saber que não passou de uma manobra para colocar os holofotes sobre si e lançar uma candidatura, apoiada por faces ocultas que manobram o aparelhismo do partido. Vasco Pulido Valente celebrizou Guterres ao pressenti-lo como uma ‘picareta falante’. E era verdade.

Guterres era uma cascata de palavras que depois não tinha consequência nos actos e tal política levou--nos ao pântano. Mas Guterres era um homem moral. Rangel é a nova versão da ‘picareta’ mas não se lhe vê aquilo que se espera do futuro político para sairmos desta sarjeta em que procuramos não ir ao fundo. Fala, fala, diz, desdiz. Afirma que viveu o 25 de Abril com intensa paixão. É falso. Tinha seis anos de idade, se é que não falseou a sua própria identidade, e aos seis anos ninguém tem paixões e talentos. A música de Rangel desafina. Desmente até ao limite que jamais abandonará o PE. Desmente qualquer hipótese de candidatura. Desmente que foi militante do CDS, como se daí viesse mal ao mundo. E dizendo-se a ruptura, é o compromisso com aquilo que de mais tenebroso mixordeia nos corredores clandestinos do poder. Continua sem revelar uma única ideia que não seja uma fome insaciável de poder, sujeito a um tacticismo que dá cartas, sem piedade. O verdadeiro Palrador da República. O PSD que o apoia continua a viver o delírio das ficções ao recordar uma vitória eleitoral a feijões. Vitória que muito se deveu ao apoio de parte dos amigos que agora traiu. Um projecto feito de raivas pessoais, ataques ao carácter, não por ideias ou ideais, mas contra pessoas.

Se esta aventura tiver sucesso, Paulo Portas deixará de ser a direita do Parlamento. Se muitos eleitores do PSD já se reviram, no último acto eleitoral, no seu programa, Portas tem o caminho aberto para chegar a segundo partido. O que é uma mágoa. Fique claro. Apoio Passos Coelho porque é a ruptura geracional que o PSD teimou em não fazer, mas não posso deixar de celebrar a honradez e o apreço por Aguiar Branco. Sou independente e pago um preço caro por isso. Mas durmo com a consciência tranquila. Jamais votarei em projectos de poder pessoal.


Francisco Moita Flores, Professor Universitário

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Natal cinzento


CM 20 Dezembro 2009 - 09h00

Impressão Digital

Entramos na semana do Natal e o frio gela caminhos, vilas, cidades e serranias, mas um frio ainda mais cortante está a entrar pelas frinchas das portas e janelas de muitas mais casas.


O frio que resulta de sonhos arruinados, de empregos perdidos, de falta de sentido para a vida que se vê barrada pela crise, que atira para a miséria envergonhada ou despida de preconceitos centenas de milhares de famílias.

Há muito que não se sentia com tanta força a necessidade de ser solidário e de forçar o futuro desconhecido a romper por uma fresta que nos entregue um raio de luz de esperança. Começa a ser uma multidão excessiva de famintos e deserdados da sorte para que a indiferença produzida pela ideologia que sobredetermina o egocentrismo e o consumismo continue a imperar sem um pingo de humanidade. Daí que Cavaco Silva esteja carregado de razão.

Num momento tão duro, prenunciando dramas ainda maiores, não pode deixar de haver uma escala de prioridade de preocupações e, no topo, não há lugar para outro debate que não seja como vencer o desemprego, atacar o problema da dívida, investir todos os esforços para aumentar a produtividade e a competitividade. Cada vez estou mais convencido de que elegemos um poder sem consciência, tão irresponsável quanto libertino, que não quer ver, ou é incapaz de reconhecer, o país em que vive, e desconhece aquilo que se passa por todo o lado. Habituados a ler a realidade por relatórios que lhes chegam ou do Banco de Portugal ou do Instituto de Estatística ou de qualquer outro instituinte, são alheios à dor e ao sofrimento, indiferentes à amargura com que dia a dia somos confrontados. Sei do que falo, enquanto autarca.

Não existe dia, não existe manhã, nem tarde, não existe uma chegada de correio que não esteja impregnada de pedidos, de súplicas, de aflições, de currículos, de qualquer coisa, de uma bóia de salvação, que evite o mergulho, que parece irreversível no precipício. E não vale a pena recorrer ao cinismo, que enoja, de atirar com este terrível rol de pragas para cima do Governo. Hipocrisia igual teve-a Pilatos, e dela resultou a morte de Cristo.

Fosse o poder que elegemos preocupado com os mais desgraçados e há muito que não teríamos este Governo mas outro, envolvendo todos aqueles que estivessem interessados em fazer sair Portugal deste inferno de fome e de desgraça, omitindo as diferenças, comungando do mesmo interesse comum. Não vai ser assim. Somos aquilo que somos.

Talvez este Natal tão gélido possa fazer ressurgir outro tempo de esperança. Apesar de tudo, é a noite de todas as promessas de esperança e continuo a acreditar nessa fé redentora. Um Feliz Natal!



Francisco Moita Flores, Professor Universitário


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Caros leitores;

Entendemos ser necessária a publicação deste artigo de F. Moita Flores, de 20.12.2009, para desfazer quaisquer dúvidas que possam subsistir sobre um comentário deixado no post "Casamento Gay - João Pereira Coutinho (aqui) e que, como refere o nosso amigo e colaborador AFS, do artigo original apresenta apenas parte de uma frase dando, assim, a ideia de se tratar de um artigo de Moita Flores.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O crime do padre Amaro



CM 29 Novembro 2009 - 09h00

Impressão Digital

A fuga do padre com a sua amada é uma metáfora. Já não consegue ser uma história com a dimensão pecadora.


Tem sido notícia quase diária. Um jovem padre apaixonou-se por uma jovem da sua paróquia. Um amor que julgam eterno, maior do que o juramento de celibato do sacerdote. Maior do que a autoflagelação da continência orgástica, ainda maior do que todos os preconceitos que fazem do jovem padre notícia e sabem a fel na língua de beatas, prosélitas e bruxas comungadas.

O jovem padre teve a coragem de escrever ao seu bispo explicando-lhe o amor que celebrava na relação clandestina com a jovem apaixonada. Não sei em que palavras terá explicado o pretenso pecado ao superior eclesiástico, pois não sei com que palavras é possível explicar a infinitude do amor. E desapareceu sem deixar rasto. Os dois amantes clandestinos do amor, medrosos do medo do preconceito, mas amando-se com a coragem do desprendimento total. Que se saiba, até agora, a Igreja está em silêncio. Constatou a fuga do ex-sacerdote, mandou substituí-lo, e calou se. Um silêncio de respeito, de quem compreende a imponência do amor. Foi inteligente e sábia.

Mas a história, mais pitoresca do que um escândalo, vale pela dimensão afectiva do caso, pela evidência do Portugal velho que Bernardo Santareno tão bem dramatizou, embrulhado em xailes negros e recalcamentos, dominado por medos e iras de morte e de raiva, que ainda persistem, que continuam viçosos e brutais como nos séculos que já nos convencemos de que estão vividos. E não estão.

Permanecem tão vivos, tão presentes, que por vezes é paradoxal falar de um País que está no topo dos países desenvolvidos e, por essa mesma razão estruturalmente culto. Mas não. É apenas um jogo de aparências.

A fuga do padre com a sua amada é uma metáfora. Já não consegue ser uma história com a dimensão pecadora que Eça de Queirós entregou ao seu romance sobre a libido do padre Amaro. Mas ainda está cheia de sentido. Por ser notícia tão noticiada, sinal da nossa reivindicação sobre memórias passadas. Por ser uma corrosão na teoria do celibato sacerdotal. Por ser, sobretudo, uma história de amor clandestino num tempo em que o amor se celebra sem preconceitos, nem mesmo o sexual.

Uma historia sobre a doçura e a dedicação da entrega e, por isso mesmo, nas minhas desorganizadas orações, peço a Deus que o seu ex-padre e a sua amada sejam felizes para sempre. Até que a morte os separe. Ou até que eles queiram.


Francisco Moita Flores, Professor Universitário