Dia a Dia
A procissão vai no adro
Um ponto de encontro. Um espaço de cultura. Um local onde falamos do concelho de Oeiras, de Portugal e do Mundo.
O Cronista Indelicado
Eu sempre critiquei o patriotismo de trazer por casa de uma certa esquerda portuguesa, que acha que a Alemanha tem a obrigação solidária de pagar pelo descalabro financeiro dos países em crise, porque isto é uma União e é suposto sermos todos amigos.
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O Cronista Indelicado
A forma como o ministro da Economia tem sido tratado pela comunicação social diz muito sobre um dos nossos piores defeitos: exigir que tudo seja diferente para depois criticar qualquer diferença. Neste momento é impossível saber se Álvaro Santos Pereira é bom ou mau ministro.
Por: Por João Miguel Tavares (jmtavares@cmjornal.pt)
Pode vir a ser péssimo, mas ainda não fez nada de significativo, para além de anunciar passes sociais. Mas quem lê jornais e ouve comentadores já terá com certeza reparado que Santos Pereira, com o seu ar patusco, está a ser transformado numa espécie de alívio cómico do governo.
Porquê? Por um lado, porque é um professor universitário vindo lá do Canadá, e que portanto não percebe nada da realidade portuguesa, ao contrário de tantos governantes que percebem imenso da realidade portuguesa e que tão bem têm feito a Portugal ao longo dos últimos anos. Mas, sobretudo, porque o ministro chegou e cometeu o pecado mortal de pedir que fosse tratado apenas por "Álvaro". A partir daí, passou a ser não "Álvaro" mas "o Álvaro", como se fosse um qualquer Ambrósio ao serviço daquela senhora que queria Ferrero Rocher.
Este modo de apoucar alguém só porque tentou ser amável e informal seria apenas deselegante se não fosse tão sintomático de uma certa forma de estar. Toda a gente critica o país dos doutores, mas depois gozamos com o doutor que diz que apenas quer que o tratem pelo nome próprio. Tal como toda a gente diz que é preciso reduzir a despesa do Estado, mas depois classificamos como corte selvagem cada medida que é tomada. Já cantava António Variações: "Só estou bem aonde não estou/ /porque eu só quero ir aonde não vou."
Sem Rodeios
Os clubes de futebol estão a demonstrar que não aprenderam nada com o país e que teimam em andar em contramão.
Por: Luís Marques Mendes, Ex-líder do PSD
Ângulo Raso
A última cimeira europeia foi um bom alívio. Dá para respirar. Mas não dá para deixar de desconfiar. Porque esta Europa é lenta e preguiçosa nos actos, atrasada e manhosa nas decisões, prolixa no palavreado.
Por: Bagão Félix, Economista
Nesta União (!), todos se desmarcam de todos! A Irlanda não é a Grécia. Portugal não é a Irlanda. A Espanha não é Portugal. A Itália não é a Espanha. A Bélgica não é a Itália. Nenhum deles é a França. A Alemanha não é a França. O Reino Unido é uma ilha. A Europa do Leste continua a leste.
Todos iguais, todos diferentes. Todos solidários, todos egoístas. Todos unidos, todos de costas voltadas. Todos em cadeia, todos encadeados.
Sem visão e sem liderança, a União caminha aos solavancos, não em geometria variável (termo caro a Bruxelas) mas em cacofonia variável.
O euro é a métrica da desunião e a evidência da incapacidade. Incapaz de responder, em tempo certo, aos desafios da globalização, a Europa passa de Velho Continente a Continente velho, no nevoeiro de crescente irrelevância. Transformada inexoravelmente nos "Estados Unidos da Alemanha".
A maléfica Moody’s não acredita que os portugueses sejam capazes de mudar de vida. Uma coisa é lançar impostos para tapar buracos.
Por: João Pereira Coutinho, colunista
Outra é cortar na despesa (e no desperdício) da Saúde, das empresas públicas – e, claro, das regiões e das autarquias. Infelizmente, o governo que se indigna com a Moody’s é o mesmo que parece disposto a dar-lhe razão. Não apenas ao carregar nos impostos como todos os governos anteriores – o subsídio de Natal, o IVA, o IMI, os automóveis, etc. Mas ao chutar para a estratosfera as medidas difíceis que aliviariam o assalto corrente aos contribuintes. A privatização da RTP é apenas um caso (adiado). A redução do número de autarquias é outro caso (adiado). Quando atinge pedra dura, o governo pára de cavar. Até quando? Dois meses, não mais. Se, depois do Verão, o Estado não entrar em dieta profunda, o melhor é atirar a toalha. Não vale a pena pedir sacrifícios quando no barco só existe um otário a remar.
Entrevista: Paula Teixeira da Cruz
Ministra da Justiça diz que terminou a impunidade dos políticos e que o combate à corrupção é uma das prioridades. Defende que não há um problema com as escutas telefónicas e que o procurador-geral da República tem os poderes de que precisa para exercer o cargo. A criminalização do enriquecimento ilícito é vista como fundamental.
Por: Eduardo Dâmaso / Manuela Moura Guedes
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Quintas do Algarve
Um jornal diário nacional trazia, na 1ª página da sua edição de sexta-feira passada, duas chamadas de capa significativas e que me deixaram "encantado".
Por: Manuel da Luz, Presidente da Câmara de Portimão
Imaginem! Lado a lado podia-se ler as seguintes mensagens, citando: "Passos quebra promessa e anuncia corte no subsídio de Natal" e "JÁ COMEÇOU – FESTAS DOS DESCONTOS ATÉ 50%.- Mulher, Homem, Jovem – Ela e Ele, Infantil e Bebés"
E se uma leitura desatenta poderia levar a concluir que estamos perante uma nova forma de comunicação política, mais apelativa e próxima do povo, realçando a universalidade da medida, cedo me apercebi de que de facto estava perante uma estranha coincidência. É que no final de uma das mensagens aparecia a seguinte nota final "Se não ficar satisfeito, devolvemos-lhe o seu dinheiro." Fiquei esclarecido.
Feliz Natal Dr. Coelho.
Ao fim e ao cabo
A Polícia de Segurança Pública tem sete mil agentes em Lisboa. O número parece razoável. Mas é enganador.
Por: Manuel Catarino, Subdirector
Faltam à capital, pelo menos, mais mil polícias: à noite, do Marquês de Pombal à Baixa, para não ir mais longe, é raro ver um carro-patrulha. A PSP dificilmente conseguirá fazer melhor.
A não ser que contasse com a ajuda da Polícia Municipal – transformada numa espécie de ‘guarda pretoriana’ da Câmara e com pouco interesse pela segurança da cidade: passa multas a comerciantes, reboca carros mal estacionados, mostra-se timidamente em voltinhas pelas ruas da Baixa e pouco mais. A Polícia Municipal tem que fazer mais – muito mais. Até porque 400 dos seus agentes foram recrutados na PSP.
Significa que a cidade perdeu 400 polícias de giro e a Câmara ganhou 400 cobradores de multas. É muito bom para os cofres da autarquia, mas é muito mau para a segurança da cidade. A Polícia Municipal tem a obrigação de assegurar o policiamento, mais que não seja, nos bairros históricos – onde o município, muitas vezes sem ouvir as juntas de freguesia, não se cansa de licenciar bares: a Câmara ganha com o negócio, mas lava as mãos dos prejuízos.
A todos os que tiveram a paciência de dedicar algum tempo a este espaço de opinião, o que agradeço, permito-me sublinhar que o deixar de ter o privilégio de expor o que penso, de partilhar reflexões e receios no Correio da Manhã não é uma despedida, mas antes uma intervenção que passará a ter outra natureza, porém, acreditem, diferente e, acreditem, com a mesma partilha, com as mesmas convicções (só que com mais dificuldades). Por isso vou continuar.
Por: Paula Teixeira da Cruz, Ministra da Justiça
Ao Correio da Manhã fica uma palavra sentida de profundo reconhecimento. Há que enaltecer o incentivo à Liberdade de pensamento que esta Instituição faz e proporciona e a luta por essa mesma Liberdade que diariamente trava, com respeito pela pluralidade e pela diversidade, o que é mesmo muito raro, sobretudo na acção diária. A Liberdade é o Valor.
Mas justamente, a crise de valores, as crises sistémicas, o fim destes tempos e início de outros – tudo a uma velocidade vertiginosa – pré-anunciam uma gigantesca alteração de paradigma para a qual nada nos preparara, o que torna tudo ainda muito mais difícil. Estamos em mutação de mundos e, nesse turbilhão, há que restaurar solidariedades sociais que um individualismo cego foi corroendo.
Vou continuar sim, ainda que de forma diferente, e contribuir o melhor que souber, e puder, em cada dia.
Até amanhã.

Sem Rodeios
O que têm em comum decisões tão díspares quanto a não nomeação de novos governadores civis, a ausência de férias para Governo e Parlamento ou o facto de o primeiro-ministro passar a viajar em classe económica? Será que estas decisões vão reduzir o défice do Estado ou a dívida pública? Claro que não. Nenhuma destas decisões tem uma especial relevância financeira. Mas têm, todas elas, um forte carácter simbólico. Exprimem um sinal, representam um compromisso e apontam um caminho. São o afloramento de uma cultura do exemplo.
Por: Luís Marques Mendes, Ex-Líder do PSD
Ao não nomear novos governadores civis, o Governo está a dizer que quer acabar com estruturas inúteis e que não está no poder para perpetuar desperdícios ou para colocar amigos e enteados. Dir-se-á que é uma decisão fácil e até tardia. É verdade. Só que antes deste Governo ninguém teve a coragem de a tomar. Foram vários os que prometeram agir mas só este Governo ousou decidir. Aqui é que está a força do exemplo.
Parlamentares e governantes não terão férias este ano e os ministros passarão a viajar em classe económica. Muitos dirão que são gestos de demagogia e populismo. É possível ver essas iniciativas por tal prisma. Mas também é possível encará-las à luz de um Governo que quer dar o exemplo. O exemplo de que é necessário trabalhar mais e de que os sacrifícios tocam a todos. Aqui está a enorme carga simbólica destas medidas. Não mudam o orçamento do Estado, mas mudam a forma como os governantes se relacionam com os cidadãos e como estes passam a olhar para quem os governa.
Há anos que Portugal abdicou da cultura do exemplo. Com facilidade promete-se e não se cumpre, fala-se mas não se faz, apregoa-se a ética mas pactua-se com a imoralidade, advoga-se o mérito mas pratica-se a cunha, cultiva--se o discurso contra a impunidade para depois fechar os olhos a quem atropela a legalidade. É este tipo de comportamento que mina a relação de confiança entre governantes e governados. Afinal, como diz o povo, o exemplo vem de cima! Se de cima vem um mau exemplo, ele contamina toda a sociedade. Ao contrário, um bom exemplo tem uma força arrasadora. Vale mais do que as melhores leis que se aprovam e que os discursos mais empolgantes que se fazem. Daí a importância dos exemplos que o Governo deu. Esperemos apenas duas coisas: primeiro, que sejam para continuar; depois, que passem do plano simbólico para o plano das políticas. Todos ganharão com isso.
Lisboa
31ºO Quarto Poder
Um procurador-geral da República deve ser uma espécie de super-herói da luta contra o crime. Mas, o que temos, é uma auto-proclamada rainha de Inglaterra que aspira ao absolutismo, numa corte com "favoritos". E para os proteger, esconde, desmente, baralha, faz tábua rasa e batota de princípios básicos. Foi assim com o Freeport, que deu por findo da forma mais vergonhosa. Foi assim no Face Oculta.
Por: Manuela Moura Guedes, Jornalista
Arquivou, desvalorizou, escondeu. Não é de estranhar que tenha achado normal o diploma de Sócrates e mantido o vice PGR ilegalmente. Pinto Monteiro não tem a isenção e a credibilidade essenciais a um PGR. Perdeu no conselho superior do MP os cinco processos disciplinares que pôs contra procuradores do Freeport e dos Submarinos. É criticado pelos sindicatos dos juízes e do próprio MP, com quem não fala. Não tem o apoio da oposição. Tanto Passos Coelho como Paula Teixeira da Cruz declararam falta de confiança nele e a necessidade de o demitir. Mas o PGR não se demite. Um mistério! Por falta de outro emprego não é. O que o força então, a manter-se? Que terá de salvaguardar Pinto Monteiro na PGR para esquecer a dignidade e a necessária confiança política do actual primeiro-ministro? Nada que pareça claro! A bem da justiça e do País, demita-se!
Avaliação Contínua
No domingo passado, os portugueses apostaram no que lhes pareceu ser a solução susceptível de garantir mais estabilidade política.
Por: José Eduardo Moniz (jemoniz@cmjornal.pt)

Correio directo
José Sócrates condicionou o poder judicial como nenhum outro primeiro-ministro se atreveu a fazer nos tempos da democracia.
Por: Manuel Catarino, Subdirector
Fê-lo em causa própria. Tentou domesticar a Justiça para evitar ser arguido. A pergunta que ontem à noite lhe foi colocada pela jornalista Susana Martins, da Rádio Renascença, foi por isso um tiro de oportunidade: "Não receia que a derrota eleitoral abra caminho a novos processos ou acelere outros em curso?".
A sala onde o PS lambia as feridas explodiu em apupos. Lamentável reacção de um partido a quem o País deve a democracia. Bem sei que não posso confundir o PS com um ruidoso naipe de labregos – mas não ouvi, pelo menos de Sócrates, uma palavra a mandá-los calar. Parece que se vai embora. Vá, senhor engenheiro, vá!
Por: Marques Mendes, Ex-líder do PSD

Sem Rodeios
Ao contrário do que alguns pensam, as eleições de 5 de Junho não têm paralelo na nossa democracia. São mesmo eleições excepcionais. Desta vez, não se trata apenas de avaliar um governo que governou mal, que teve políticas erradas e que não tem obra para apresentar. É muito mais do que isso. É julgar um governo que nos deixou à beira da bancarrota, que lançou o País na maior crise social do pós-25 de Abril e que levou a política a uma degradação nunca vista.
Por: Luís Marques Mendes, Ex-líder do PSD
Não fossem os 78 mil milhões de euros de ajuda externa e Portugal estaria agora a entrar em bancarrota. Sem dinheiro para salários e pensões. Sem meios para solver os seus compromissos. Já desde 1892, há mais de um século, que não se falava de bancarrota em Portugal. O vexame voltou agora através da governação de José Sócrates. O País não merecia tamanha irresponsabilidade.
Um primeiro-ministro que ganhou eleições há 6 anos a prometer 150 mil empregos deixa-nos agora mergulhados na maior crise social de sempre – 700 mil desempregados, famílias inteiras sem emprego, jovens sem oportunidades, idosos sem dinheiro para medicamentos, uma parte da classe média atirada para uma pobreza envergonhada. O mais chocante é que, para ganhar, todas as promessas de emprego serviram. Agora, nem uma palavra de solidariedade para quem caiu no drama do desemprego.
A esta falência financeira, económica e social somou-se uma degradação política nunca vista. Não foi só o abuso da propaganda, da publicidade enganosa e da chantagem. Foi muito mais do que isso. Foram a mentira e a aldrabice transformadas em instrumentos de acção política. Nem sequer em relação à versão final do acordo com a troika o primeiro-ministro agiu de forma linear e verdadeira. Não há volta a dar: este homem tem um problema estrutural e compulsivo com a verdade. Foge dela como o diabo da cruz. Tenho a certeza de que até muitos socialistas – também eles pessoas de bem – se devem sentir incomodados com esta forma insensível e degradante de fazer política.
Um primeiro-ministro assim não merece apenas ser derrotado. O que merece mesmo é uma punição exemplar. Como sucedeu na Irlanda e em Espanha. Para acabar com este desastre e terminar com este pesadelo. Sobretudo para reabilitar a imagem do País. Em política, não pode valer tudo. O País precisa de quem o sirva com seriedade. Não de quem dele se sirva sem regras nem escrúpulos.

A Voz da Razão
O PCP resolveu pintar a Escadaria Monumental da Universidade de Coimbra com os dizeres da praxe. ‘Legítimo’, diz o PCP. ‘Vandalismo’, dizem os estudantes. Inevitável, digo eu: usar e abusar do património público como se este fosse uma tela partidária faz parte do mundo arcaico a que o PCP pertence.
Por: João Pereira Coutinho, Colunista
E esse mundo, que por vezes nos assalta em paredes gastas de bairros esquecidos, não se limita a estas formas de propaganda. O programa eleitoral que o PCP apresenta a concurso, por exemplo, não se distingue de todos os programas que o PCP apresentou nos últimos 36 anos de democracia doméstica. Tudo muda. Portugal muda. O PCP, na sua substância e nos seus métodos, não muda. Não admira que, para os comunistas, desfigurar uma escadaria com evidente importância patrimonial seja tão legítimo como defender as nacionalizações, o esmagamento da banca e até o exemplo da Coreia do Norte. As escadarias de Coimbra podem ser uma relíquia da cidade e do país; mas, em matéria de relíquias, o PCP sabe que não tem rivais.
