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domingo, 10 de julho de 2011

Pedras duras

A Voz da Razão


A maléfica Moody’s não acredita que os portugueses sejam capazes de mudar de vida. Uma coisa é lançar impostos para tapar buracos.

  • 0h30

Por: João Pereira Coutinho, colunista

Outra é cortar na despesa (e no desperdício) da Saúde, das empresas públicas – e, claro, das regiões e das autarquias. Infelizmente, o governo que se indigna com a Moody’s é o mesmo que parece disposto a dar-lhe razão. Não apenas ao carregar nos impostos como todos os governos anteriores – o subsídio de Natal, o IVA, o IMI, os automóveis, etc. Mas ao chutar para a estratosfera as medidas difíceis que aliviariam o assalto corrente aos contribuintes. A privatização da RTP é apenas um caso (adiado). A redução do número de autarquias é outro caso (adiado). Quando atinge pedra dura, o governo pára de cavar. Até quando? Dois meses, não mais. Se, depois do Verão, o Estado não entrar em dieta profunda, o melhor é atirar a toalha. Não vale a pena pedir sacrifícios quando no barco só existe um otário a remar.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Resumindo e concluindo

Resumindo e concluindo


"PSD: Foi o único partido que tentou levar a sério as medidas que assumiu com a troika. E foi o único que tentou debatê-las contra uma cortina de ruído e irrisão. Se Passos ganhar, terá sido pelo caminho mais sério – e mais difícil."

domingo, 29 de maio de 2011

Um herói português


A voz da razão

Um herói português

O programa da troika é uma ajuda para que o PSD aplique o seu próprio programa.

  • 0h30

Por: João Pereira Coutinho, Colunista


Acusou José Sócrates. Ninguém se riu. Que pena. Com uma candura tocante, o líder do PS admitiu o que já se suspeitava: que, com ele, o programa da troika não é para cumprir.

O que, aliás, se compreende: se fosse para cumprir, o PS teria apresentado um programa eleitoral compatível com a Europa e o FMI – e, de preferência, depois de conhecidas as medidas impostas. Sem falar do recente caso dos ‘dois documentos’ (ou, melhor dizendo, três) que não batem uns com os outros: a 3 de Maio, PS, PSD e CDS assinaram uma versão da coisa; a 17 de Maio, o PS assinou outra – sem dar contas ao vigário.

Meros pormenores? Essa não é a questão. A questão é um dever de lealdade e transparência que Sócrates não tem para com o país, que ele trata como coutada sua. Claro que, nesta voragem autoritária, alguns ainda lembram que, sem cumprir o acordado, não há pataco para ninguém. Nada que perturbe um recordista como Sócrates: o homem que nos levou à bancarrota uma vez promete levar--nos uma segunda. É de herói.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Dias do fim


Dias do fim


Visto da Direita


As acusações são lancinantes: o governo esconde que anda a nomear pessoal político nestes dias do fim; e esconde os 205 milhões de euros de despesa no primeiro trimestre.

0h30


Por: Pereira Coutinho, Colunista




Uma lamentável desvergonha? Prefiro acreditar que não. Prefiro acreditar, seguindo o slogan do PS, que tudo isto se destina a ‘Defender Portugal’: a defender, no fundo, a frágil saúde mental dos portugueses, que obviamente não resistiria a tantos traumas.

As próprias explicações dos socialistas ajudam a reforçar a crença: o PS não desmente estes ‘pormenores’ macabros; mas lá vai insinuando que todo o lixo que agora varre para debaixo do tapete seria assumido depois das eleições, de preferência quando o povo já tivesse votado em ignorância e sossego. Sócrates não é apenas o político mais odiado da pátria; é também o mais incompreendido. O homem quer a nossa paz e ninguém o deixa em paz.

domingo, 13 de março de 2011

Fim de festa


Lisboa

14º


Hoje, 12h47m

A Voz da Razão


Estava tudo a correr tão bem: nos dois primeiros meses de 2011, a execução orçamental não era apenas boa. Era muito boa e, pasme-se, superior ao esperado. O défice descia. A despesa também.

Por: João Pereira Coutinho, Colunista

Verdade que os portugueses continuavam a ser espremidos, mas os portugueses gostam de ser espremidos. O clima era tal que um semanário titulava na primeira página que o FMI já não vinha. E até Sócrates, com compreensível mágoa, lamentava a relutância da Oposição em canonizá-lo.

A festa acabou: com a apresentação de um novo pacote de austeridade, que só por maldade pode ser visto como uma confissão de incompetência, o PSD não está disponível para dar mais uma mão ao governo. Um capricho intolerável de quem não percebe que as pessoas não têm que acertar à primeira ou à segunda; nem à terceira ou à quarta; mas talvez só à quinta ou à sexta; ou quem sabe à décima. Claro que, neste processo de teste e erro sobre o país, existe sempre a possibilidade de matarmos a cobaia. Mas a falta de espírito científico do PSD é a prova de que o plano tecnológico do engº Sócrates não chegou a toda a gente.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Os vigilantes



Os vigilantes

A Voz da Razão


Portugal tem traços de primitivismo. Existem vários. Ligar a televisão e ver políticos a fazer ‘opinião’ é um deles.

0h30
Por: João Pereiira Coutinho, colunista


Outro é considerar que um jornalista que se constitui assistente num processo judicial de interesse público é um perigo para a ‘qualidade da democracia’ (deixa-me rir). Ponto prévio: não conheço José António Cerejo de lado algum. Mas o jornalista do ‘Público’, que tem acompanhado o caso Freeport, representa bem o que eu espero de um jornalista a sério: coragem, independência e uma disponibilidade total para vigiar o poder de forma implacável.

Exactamente como sucede em latitudes menos primárias: em Inglaterra, nos Estados Unidos e até no Brasil. Isto, pelos vistos, não cai bem na tradição nativa, para a qual o jornalista perfeito é o bedel perfeito: uma criatura sem autonomia, sempre pronta para se lambuzar no poder e, não raras vezes, disponível para dormir com ele. Lá fora, o jornalismo vigia; entre nós, vigia-se o jornalismo que vigia. E perante um Cerejo à solta, não faltam logo vozes que o preferiam calado, obediente e de volta ao serralho.

domingo, 1 de agosto de 2010

Uma carnifina



Uma carnifina

0h30

Que o Ministério da Educação queira acabar com os ‘chumbos’, não admira. Toda a filosofia do ensino português, nos últimos longos anos, apontava para essa utopia igualitária: o fim da exigência pedagógica e o enterro de qualquer noção de excelência intelectual.

O que admira é a reacção da Confederação Nacional das Associações de Pais, que aplaude a medida e considera a pretensão da dra. Isabel Alçada "a maior revolução na educação desde o 25 de Abril".

Engraçado. Se alguém estivesse a preparar um crime destes sobre a formação académica de um filho meu, a única atitude sensata seria a náusea, a revolta, eventualmente a emigração.

As nossas associações de pais, pelo contrário, sentem orgulho e até gratidão. Porque imaginam que esta simpática fraude irá depositar nas mãos dos filhos o diploma de fantasia com que eles enfrentarão o mundo real.

Não é difícil imaginar a carnificina do arranjo. Difícil é contemplar o sorriso dos pais de hoje pelos filhos analfabetos e imprestáveis que terão amanhã.


João Pereira Coutinho, Colunista

sábado, 24 de julho de 2010

A ditadura dos horários


A ditadura dos horários

A Voz da Razão

0h30

Viver em Portugal é conhecer a ditadura dos horários. Que o mesmo é dizer: se não seguimos os hábitos do rebanho, será impossível jantar decentemente à meia-noite; ou fazer compras pelo serão adentro.

Felizmente, esta provinciana mentalidade está a mudar e o governo já permite que os hipermercados possam abrir ao domingo, das seis à meia-noite. Custa a crer que se esperou até 2010 para ver reconhecida esta benesse. Mas também custa a crer que o governo ainda admita excepções, consoante os casos, em que o poder local é que sabe. Não, não sabe.

Quem sabe é o dono do negócio, que devia estabelecer o seu horário de acordo com os interesses da clientela. Dizer-se que a liberalização dos horários comerciais reforça o emprego (entre 2 a 8 mil novos postos) e anima o consumo das famílias é passar ao lado do argumento essencial. E o argumento essencial reduz-se na palavra clássica: liberdade. Ou o poder político respeita a liberdade de comerciantes e consumidores; ou persiste no abuso de se imaginar pai dos portugueses, ordenando-lhes xixi e cama quando o relógio manda.


João Pereira Coutinho, Colunista

sábado, 17 de julho de 2010

O Pais da fantasia

O País da fantasia

A Voz da Razão

O Parlamento anda entretido com os subsídios para a cultura: será que o ex-responsável pela Direcção-Geral das Artes gastou tudo no primeiro semestre e não deixou nada para o segundo? Entendo a gravidade do tema. Pena que os nossos parlamentares não aprofundem um outro: a demissão do cavalheiro e a reacção da ministra.

Reacção efusiva, entenda-se: a demissão liberta o sector de ‘constrangimentos’, ‘atrasos’, ‘ineficácias’, ‘irresponsabilidades’ e ‘barreiras’ entre os criadores e a tutela.

Perante este quadro, ao qual só falta mesmo o vandalismo,a srª Canavilhas não explicou por que motivo manteve um incompetente no lugar. Ou explicou, mas seria melhor que não: para a ministra, alguém que dá mostras de uma conduta tão lesiva para o interesse público foi mantido no sítio para preservar ‘um mínimo de estabilidade’ no sector.

Não sei se é precisamente esse ‘mínimo de estabilidade’ que justifica a manutenção da própria ministra no cargo. Mas esta anedota, que não perturba os nossos tribunos, é a prova acabada de que Sócrates não está sozinho no país da fantasia.


Por: João Pereira Coutinho, Colunista

sábado, 26 de junho de 2010

Vai uma aposta?

Vai uma aposta? - João Pereira Coutinho - Correio da Manhã

A voz da razão


As coisas podiam ser racionais. Por exemplo: se existem auto-estradas, os utilizadores que as paguem. Se, por outro lado, as auto-estradas são de ‘proximidade’, com traçados que não aconselham portagens tradicionais, então o exército de impostos que os automobilistas já suportam chegava para as pagar.

0h30
Por: João Pereira Coutinho, Colunista


Em Portugal, existe um certo horror à racionalidade e os resultados estão à vista: começa por se prometer Scut de borla, uma fantasia ruinosa que Guterres inaugurou; depois, quando a crise aperta, ameaça--se com cobranças em algumas, não em todas; e quando certas vozes se levantam contra a injustiça, avança-se para a cobrança universal, um gesto só possível se a oposição aceitar os ‘chips’ – uma engenhoca perigosa e iliberal que a oposição, até ver, se recusou a aceitar.

O mais cómico deste nó cego é que dias e dias de negociações ‘dramáticas’ acabarão por gerar exactamente aquilo que o governo deseja: Scut pagas em todo o país; e, até à votação final global dos diplomas, uma qualquer versão dos famosos ‘chips’, que o PSD já se prepara para engolir.

Vai uma aposta?

sábado, 29 de maio de 2010

Mulheres barbudas


Em teoria, não me oponho às últimas loucuras do BE e do PS, a serem apresentadas na próxima semana. Permitir que um homem passe a mulher (nos documentos) conservando, porém, o respectivo pénis? É compreensível: todos nós guardamos certos ‘souvenirs’ de hotéis, mesmo que não tencionemos lá voltar. Por pura nostalgia.


O problema é que os projectos de ambos, ao acentuarem a divisão fatal entre ‘sexo’ e ‘género’, abrem a porta para qualquer delírio da ‘subjectividade’. Hoje, são homens que se sentem mulheres e mulheres que se sentem homens.

Mas nada garante que, nesta recusa da ‘natureza’ e na afirmação de uma ‘identidade’ alternativa, não apareçam por aí variações bizarras: homens que se imaginam cães; mulheres que se imaginam periquitos; e até, por incrível que pareça, homens que se imaginam mulheres que se imaginam homens.

Todos os seres humanos têm direito a viver as suas fantasias? Sem dúvida. Mas nenhum tem o direito de exigir dos outros o respeito ou o reconhecimento dessas fantasias. Que o meu vizinho goste de ladrar não é motivo suficiente para eu lhe oferecer um osso.



João Pereira Coutinho, Colunista

sábado, 1 de maio de 2010

Abençoado povo


Abençoado povo - Opinião - Correio da Manhã

01 Maio 2010 - 00h30
A Voz da Razão

É difícil comentar a actuação do governo perante a crise. Em 24 horas, existem versões para todos os gostos, rapidamente desmentidas com visível desgosto.

O ministro das Finanças, que sempre me pareceu uma boa alma, garante que vai repensar tudo, incluindo na meditação as obras públicas suicidárias. Mas o ministro da respectiva pasta discorda e afirma que o TGV, a terceira travessia e o aeroporto são mesmo para continuar. Não sei o que dirá Sócrates amanhã, ou ainda hoje. Sei que os mercados não devem ‘sossegar’ com as lideranças da paróquia.

Que, diga-se, não se ficam pelo Executivo: Passos Coelho, depois de se oferecer como muleta, declarou por aí que o governo perdeu a credibilidade e a confiança política. E até o Presidente da República, que elogiou o PEC, finalmente reparou que o documento não prevê a suspensão da nossa megalomania.

E os portugueses? Os portugueses, na passada terça, aproveitaram a greve dos transportes e foram para a praia. Abençoado povo. No meio do caos, os nossos veraneantes são os únicos que ainda sabem o que fazem.


João Pereira Coutinho, Colunista

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Uma casa em ruínas



Uma casa em ruínas - Opinião - Correio da Manhã


30 Abril 2010 - 00h30
A Voz da Razão



Pedro Passos Coelho telefonou a José Sócrates. Fez bem. Com o país perto da falência, o novo líder da Oposição teria obrigatoriamente uma palavra sobre o assunto. Que palavra?

Exigir, em linguagem prosaica, que o eng. Sócrates enfiasse o seu PEC no caixote (que, pelos vistos, não convenceu os mercados) e optasse por medidas credíveis e austeras desde já. As medidas, sem grande imaginação, oscilariam entre a suspensão dos grandes projectos (aeroporto, TGV, auto-estradas); um ataque sério à gordura e ao desperdício do Estado; e, fatalmente, cortes salariais para evitar uma possível subida de impostos.

Não foi o que sucedeu. Para começar, Passos Coelho subscreveu a cantiga do ‘ataque especulativo’, que por definição isenta o governo Sócrates da crise. E, para terminar, abençoou a redução dos subsídios de desemprego e a fiscalização das prestações sociais, paliativos que não resolvem a doença corrente. Passos Coelho partiu para S. Bento como líder da Oposição. Saiu de lá como cúmplice da irresponsabilidade socialista. Portugal é isto: uma casa em ruínas sem governo nem alternativa.



João Pereira Coutinho, Colunista

sábado, 24 de abril de 2010

Circos romanos



Circos romanos - Opinião - Correio da Manhã

24 Abril 2010 - 00h30
A Voz da Razão

Rui Pedro Soares esteve na comissão parlamentar ao caso PT-TVI e, depois do circo conhecido, interessa saber o que farão agora Pinto Monteiro e José Sócrates.

Comecemos pelo PGR: o silêncio do administrador não o faz incorrer, apenas, num crime de desobediência. O silêncio foi uma escolha clara de que é preferível arriscar na desobediência do que contar toda a verdade. O que implica saber qual é a verdade sobre os negócios da PT (e da Taguspark) que manifestamente embaraça um dos seus estrategos. Se dúvidas havia sobre a lisura desses negócios, elas agravaram-se com esta mudez. O Ministério Público que tome nota e, de preferência, que acorde. E José Sócrates? O primeiro-ministro foi inocentado por uma declaração de Rui Pedro Soares que só convence quem se deseja convencer. Mas ao admitir ter usado o nome do primeiro-ministro de forma abusiva, interessa perguntar que atitude tomará Sócrates perante um alto administrador do Estado que anda por aí a usar o seu nome em negociatas sortidas. O silêncio de Sócrates será bem pior do que o silêncio do seu fiel amigo.



João Pereira Coutinho, Colunista

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O vestido de Gama

O vestido de Gama - Opinião - Correio da Manhã

23 Abril 2010 - 00h30
A Voz da Razão

Inês de Medeiros foi eleita para o Parlamento pelo círculo de Lisboa. Mas com a família a viver em Paris, surgiu a questão sacramental: quem paga as viagens semanais da deputada?

A resposta evidente seria: a própria. Inês discordou. E Jaime Gama, munido com um apropriado parecer ‘jurídico’, concorda. Os portugueses que paguem, disse Gama. Mas avisou: o caso não abre precedentes. O despacho presidencial é como certos vestidos de alfaiate: peça única para uma cliente só. Se amanhã um deputado eleito por Lisboa instalar a família nas Caraíbas, não há borlas para ninguém. Injusto.

Resta acrescentar que o Conselho de Administração da Assembleia aprovou o despacho com votos favoráveis do PS e contra do PSD e do Bloco. O PCP não apareceu (há burgueses e burgueses). E o CDS ficou-se pelo grotesco: absteve-se. E Inês? Inês devia aproveitar o seu estatuto singular para dar a volta ao mundo, saltitando de capital em capital. E com os portugueses alegremente a pagar. O país pode caminhar para o abismo, mas é importante que, no meio da desgraça, haja alguém que se divirta.



João Pereira Coutinho, Colunista

domingo, 11 de abril de 2010

O faroeste



O faroeste - Opinião - Correio da Manhã

11 Abril 2010 - 00h30
A voz da razão

Viva o faroeste! Para quê perder tempo e dinheiro com julgamentos, condenações e lamentáveis masmorras? Uma sociedade de adultos é uma sociedade capaz de puxar o gatilho sem a intromissão do Estado. E o novo Código de Execução de Penas, aprovado pelo PS, é um incentivo ao tiroteio que faria as delícias de John Wayne.
A partir de amanhã, qualquer criminoso, independentemente da natureza do crime, poderá sair da cadeia com um quarto da pena cumprida. ‘Pena’, aqui, é eufemismo: se o criminoso violou ou matou, por exemplo, terá cinco anos para descansar da excitação antes do regresso triunfal às pradarias lusitanas. Momento em que as vítimas, ou os familiares das vítimas, estarão à espera dele, prontas para ajustar contas e desfrutar de igual período de férias.

O novo código é um convite ao crime pela tolerância do crime. E não se entende por que motivo o PS não vai mais longe, abolindo de uma vez por todas o sistema judicial e promovendo a construção de saloons (com portas bang-bang) e, pormenor fundamental, bebedouros para as montadas. A seu tempo.



João Pereira Coutinho, Colunista

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Licença de cão

Licença de cão - Opinião - Correio da Manhã

09 Abril 2010 - 00h30
A Voz da Razão

Quem quer chegar longe em política, nunca se esquece de ter licença de cão. Mesmo que não tenha cão. A frase pertence a uma amiga, que a citou nos últimos dias. Por causa das ‘casinhas’ da Guarda.

As construções que o jovem Sócrates assinou são esteticamente aberrantes? Facto. Mas elas não destoam da média nacional: o país que treme de gozo com semelhantes mostrengos é o mesmo que não tem por hábito olhar-se ao espelho e contemplar a sua miséria patrimonial. O problema das casinhas não é estético; nem sequer é ético, no sentido elevado do termo: assinar uns projectos por amigos (sem cobrar um tostão, claro) faz parte da informalidade nativa. E nunca o deputado Sócrates, em exclusividade parlamentar, imaginou que as ‘casinhas’ e outros ‘casinhos’ fossem reprováveis. Porque nunca o deputado se imaginou primeiro-ministro. Quem se imagina primeiro--ministro, não descura o passado com tamanha displicência. Compra licença de cão, mesmo que não tenha cão. O espanto que o eng. Sócrates sentiu quando chegou a S. Bento só é comparável ao nosso por ainda o vermos lá.



João Pereira Coutinho, Colunista

sábado, 3 de abril de 2010

Batalhas navais - Opinião - Correio da Manhã

Batalhas navais - Opinião - Correio da Manhã

03 Abril 2010 - 00h30
A voz da razão

Os submarinos voltaram à superfície e surgiram por aí ‘especialistas’ avulsos em defesa nacional. Segundo eles, comprar submarinos é uma inutilidade. Eu, inocentemente, acreditava que Portugal, um país oceânico por definição, devia ter equipamento capaz de defender e vigiar a sua vasta zona marítima. Mas longe de mim perturbar tanta sabedoria. Até porque os ‘especialistas’ são a parte menor do espectáculo.

A parte maior pertence à nossa classe política, que, ao mínimo sinal de alarme, se transforma em submarino e submerge para parte incerta. Dirigentes socialistas, confrontados com os contornos duvidosos do negócio, apressam-se a negar a utilidade da compra que eles próprios iniciaram. Durão Barroso, primeiro-ministro à época, diz que nada teve a ver com um negócio de Estado. E quando a imprensa e a magistratura alemãs vão denunciando e prendendo suspeitos, os partidos do regime (PS, PSD e CDS) opõem-se a qualquer investigação parlamentar ao caso.

Os submarinos são necessários? Pergunta errada. A pergunta certa é saber se políticos destes o são.


João Pereira Coutinho, Colunista

sábado, 27 de março de 2010

A chantagem - Opinião - Correio da Manhã

A chantagem - Opinião - Correio da Manhã

27 Março 2010 - 00h30
A voz da razão

'Mudar'. ‘Ruptura’. ‘Unir’. Três palavras, três candidatos à liderança do PSD. Curiosamente, a palavra essencial é outra. ‘Chantagem’. Deve o PSD aceitar a ‘chantagem’ do PS? Ferreira Leite aceitou-a, abstendo-se na resolução sobre o PEC. Porque acreditou que o chumbo laranja atiraria o país para eleições.

Alguém devia ter explicado à dra. Ferreira Leite que essa possibilidade é parte da chantagem. Mesmo que o governo deseje, como efectivamente deseja, bater com a porta, isso não depende da vontade do eng. Sócrates. Depende da vontade do Presidente da República. E, claro, da apresentação de uma moção de censura, ou de confiança, no Parlamento. Como Cavaco não está disposto a comprometer a sua reeleição, e como o PSD não parece interessado em suicidar-se na brincadeira das moções, o PS só terá fuga se, precisamente, fugir. Uma proeza que o eleitorado não costuma premiar.

O próximo líder não precisa de mudar, romper ou unir. Precisa de devolver a ‘chantagem’ à procedência, separando as águas. Se o PS fez a cama, o PS que se deite nela. Sozinho, lentamente e até ao fim.

João Pereira Coutinho, Colunista