sexta-feira, 18 de junho de 2010

A arte de não ter vergonha na cara



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O Cronista Indelicado

Se José Sócrates tivesse tanta habilidade para driblar defesas centrais como tem para fintar escândalos políticos seria titular indiscutível da selecção nacional, mesmo aos 52 anos de idade. Neste mundo, há muitos tipos de inteligência, e dentro do género "olhem como eu passo por trombas de água sem me molhar", o nosso engenheiro é um autêntico prodígio planetário, merecedor de dupla página no Guinness Book of Records. É um talento manhoso, é certo. Mas é um talento.


Eu sei isto. O caro leitor sabe isto. Portugal inteiro sabe isto, tirando, vá lá, dois ou três comentadores de cabelos brancos, que continuam a acreditar que o senhor engenheiro é uma nova aparição da Virgem, agora em cima de um arbusto de São Bento. Eu respeito todas as manifestações de fé. O que eu já tenho dificuldades em respeitar são as manifestações de hipocrisia como aquela que Mário Lino assinou há três dias no jornal ‘Público’. Num texto intitulado "Uma grande mistificação", Mário Lino – grande amigo de Rui Pedro Soares, com quem costumava discutir futebol no Ministério das Obras Públicas – acusa o deputado João Semedo de "baixa política" (conter o riso, por favor) por o relatório parlamentar ao negócio PT-TVI não ilibar por completo o primeiro-ministro.

Lendo isto, só tive pena que Mário Lino não tivesse dado um passo em frente: por que não criticar João Semedo por ter perdido a oportunidade de propor a canonização em vida de José Sócrates? Em Portugal há duas realidades paralelas. Uma, a das pessoas que lêem jornais, conhecem parte das escutas e sabem o que foi o negócio PT-TVI. Outra, a dos senhores que nos governam e representam, e que negam as evidências através de formalismos, silêncios e mentiras. Que depois ainda escrevam artigos indignados nos jornais, eis o que já me parece o cúmulo da cara de pau.

(...)


João Miguel Tavares jmtavares@cmjornal.pt

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